O fenómeno da década

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EMBLEMA - Foi o maior fenómeno individual do campeonato na década de 90, referenciado em canção de músico de época (lembram-se de mais futebolistas na história com essa honra?), autor de perto de 130 golos em quatro anos, transformado no rosto emblemático da fase mais recente de ciclo dominador a caminho dos 20 anos. Mário Jardel surgiu em Portugal do quase nada, referenciado pela excelência do seu jogo de cabeça e porque o Benfica, que chegara a tê-lo nas mãos, o recusara à última hora. Quando saiu deixou-nos a fazer contas a partir da sua presença: tinha havido uma fase antes de Jardel e outra depois dele.

CONTRADIÇÕES - Da Turquia as notícias foram sempre contraditórias: tanto estava ambientado, feliz e era reconhecido, como se anunciavam problemas de adaptação e críticas mais ou menos veladas à sua capacidade como jogador, apesar da base objectiva e indiscutível que jogava a seu favor e o defendia de tudo o resto: continuava a marcar golos. De uma forma ou de outra manteve o elo de ligação a Portugal e enquanto Pena não pisou o grande palco, o tribunal das Antas viveu semanas a fio a recordá-lo com uma saudade que chegou a ser incómoda.

OMISSÃO - Ao longo de um ano, Jardel jogou com a noção exacta das marcas que deixou no futebol português (não teve qualquer pejo em ser trunfo eleitoral do Benfica e de aceitar, por via da presença de Rodolfo Moura em Alvalade, uma possível ligação ao Sporting), mas foi estranhamente frio e indiferente às emoções que provocou no FC Porto. Mais por omissão que por palavras contundentes afastou-se da instituição e das pessoas que lhe permitiram atingir um estatuto que, em boa verdade, nunca teve e muito provavelmente nunca terá noutro lugar do Mundo.

AJUSTAR CONTAS - Dito de outra forma, continua a ser legítimo admitir que da parte do próprio jogador houve um desejo secreto e quase mórbido de regressar a Portugal entrando por outra porta que não a das Antas, assim como quem pretende ajustar contas atrasadas ou desfazer dúvidas não esclarecidas: quem deu mais a quem, Jardel ao FC Porto ou o FC Porto a Jardel? Se é possível, ao fim de cerca de vinte anos, perceber a lógica de funcionamento de um clube gerido pelo mesmo homem e sob os mesmos princípios, em condições normais nunca mais ele vestiria a camisola azul e branca.

MITO - Mas esta não é uma situação normal. Jardel tornou-se um mito para os adeptos portistas e mesmo que não tendo respeitado na íntegra a paixão que lhe devotam, dispõe de crédito para ultrapassar mal-entendidos. A sua carreira, que parece ter caído em encruzilhada inexplicável, ainda alimenta uma dúvida - por que razão o Benfica desperdiçou a segunda possibilidade de o contratar, agora que o preço do passe já vai abaixo dos 2 milhões de contos - e cria uma expectativa - é que o caso só estará definitivamente encerrado quando os jornais deixarem de falar sobre o assunto e os adeptos abandonarem resignados a porta da Torre das Antas...

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