O filho menor da nova geração
1. Toca a bola com o requinte dos deuses e a habilidade dos predestinados; a visão ampla do campo é acompanhada pela precisão dos gestos e o acerto das decisões que toma. Carlos Martins é um jogador com amplitude de movimentos e abrangência funcional; comprometido com a causa defensiva e solidário na disponibilidade que revela para ajudar companheiros em dificuldades; talentoso a sair de apertos em espaços reduzidos e precioso no modo como alimenta o desenvolvimento atacante. Porque observa para lá do que está à vista desarmada, o passe é uma arma de estimação, com a qual opera verdadeiros milagres. As solicitações podem levar mais ou menos veneno, ser curtas ou longas, para o lado ou para a frente. Mas todas têm objectivos claros.
2. Membro destacado de um grupo de jogadores que tiveram afirmação instantânea e anunciaram futuro brilhante (Cristiano Ronaldo, Hugo Viana, Ricardo Quaresma, Hélder Postiga, Tiago, Moreira, entre outros, estão aí para o provar), Carlos Martins concentrou dúvidas excessivas e despropositadas desde o início. Logo ele que foi o primeiro a chegar à SuperLiga, há mais de quatro anos, em Alvalade, num jogo que Augusto Inácio idealizou como apresentação solene do novo craque e as circunstâncias transformaram no inferno de um cartão de visita pouco recomendável - integrado no Sporting campeão que iria desfazer-se aos poucos, não evitou o empate com o Alverca (1-1).
3. Desde essa altura que Carlos Martins ouve a mesma cantiga: do tempo que lhe sobra; da instabilidade emocional que o prejudica; da imaturidade que o desaconselha como coordenador de uma grande equipa. De resto, tem sido vítima de muitos dos preconceitos da sociedade para com a juventude. Em Campo Maior, uma rábula integrada no processo de extinção do clube transformou-se na explicação sibilina de pecados com e sem importância; seus e de outros; reais e fictícios. Em Coimbra, a evidência de classe não converteu os mais cépticos. E ainda bem. Um sucesso esmagador teria, provavelmente, o efeito perverso de sugerir que a Académica seria o seu limite. E não era, como se tem visto nas últimas prestações pelo Sporting.
4. Para assentar ideias e usufruir do sossego; para crescer em paz e ver reconhecido o talento, Carlos Martins parece condenado à exigência desumana de conceber, lapidar e distribuir pérolas sucessivas durante um dia, um mês ou até uma época inteira. Filho menor desse Deus maior e generoso que deu ao futebol nacional uma nova geração de fenómenos, não pode sentir que a dúvida é permanente ou que o exterior, em vez de admirá-lo sem preconceitos, aguarda pelo primeiro sinal de fraqueza para exercer a injustiça do costume - devolvê-lo à estaca zero. Carlos Martins não tem o céu como limite mas também possui asas para voar; está um degrau abaixo dos génios mas muito acima da vulgaridade que o tem vencido, escandalosamente, ao longo do tempo. Ou muito me engano ou chegou a hora de ajustar todas as contas.
Recordando Berlusconi e Sacchi
Há muito que Berlusconi desapareceu dos treinos e dos jogos do Milan. Consta que, em tempos, numa fase de conflito entre os jogadores e Sacchi, cujas consequências já tinham chegado aos adeptos, decidiu ir ao balneário. Ficou à porta e fez questão de cumprimentar os jogadores um a um: "Bom dia, meu amigo. Eu estou com Sacchi." Exerceu a autoridade, esclareceu as dúvidas e resolveu o problema. Também podia jurar lealdade ao treinador e, pelas costas, andar à procura de substituto. Só que, assim, a história seria portuguesa e não italiana...
Dar seguimento à história
Dário nunca desfez a imagem de que partiu sem convicção - as decisões foram ditadas por motivos financeiros. A equipa ficou órfã do craque e goleador; os adeptos nunca mais tiveram um ídolo igual. Agora, o moçambicano voltou aos golos e ao lugar de onde nunca saiu: o coração da gente. Pronto para prosseguir a história que o liga à Académica. Assim é que é bonito.
Miguel, a cabeça e a perna
Trapattoni disse que Miguel estava recuperado e que a questão se resumia à cabeça do jogador - falta de confiança. O jogo mostrou que Trap não o convenceu - se não se importarem, eu acho que o problema principal estava mesmo era na perna. Ou não. Porque se o treinador lhe perguntou quatro vezes se estava em condições e ele respondeu que sim, bom da cabeça é que Miguel não podia estar.
Mais um nome para a lista
A exibição na Luz ressuscita uma questão (como é possível chegar quase invisível aos 30 anos?) e acrescenta um nome à lista mágica dos grandes maestros da SuperLiga 2004/05 (Diego, Jorginho, Juninho Petrolina e Leo Lima). Ricardo Nascimento está a confirmar no Rio Ave a exuberância de um talento ligado à bola e ao jogo, a força de convicções e a beleza de um estilo. O suficiente para explicar que, se não chegou mais longe, a culpa não pode ter sido só dele.
