O funcionário que é general
1. Se entrasse num filme de “cowboys”, Fábio Rochemback seria um daqueles maus da fita que geram simpatia, pelo perfil de duro generoso, pela forma zelosa como delimita o seu território e pela veemência com que defende princípios, bens e amigos. O apelido não corresponde à nacionalidade brasileira, o jogador faz justiça à origem alemã – limpa o futebol do que é supérfluo, utiliza o centro do terreno como eixo da acção e serve-se quase em exclusivo da linha recta para atingir os fins. Com a bola tem um pacto especial: por convicção não lhe dá descanso (joga a um/dois toques), por método define com antecedência o itinerário até ao destino que mais lhe convém. A viagem pode ser curta ou longa; será sempre segura e nunca reclamará o enquadramento da solenidade. Não parece, mas é a técnica no seu estado mais puro.
2. Rochemback é um médio-centro de enorme abrangência territorial e versatilidade de recursos. O primeiro impacto só faz metade da justiça e remete para o funcionário aplicado, com missão a cumprir na sala de máquinas em que está transformada uma zona em tempos geradora de grandes ideias: defende a ordem e está permanentemente disponível para ajudar; em nome da eficácia, rejeita os manuais de etiqueta e recorre à simplicidade de processos. É um operacional implacável que não estimula argumentos contemplativos, não pára para pensar e deixa-se levar pelo instinto; a sua presença chega a ser excessiva, pouco racional até, sinais imaturos de quem não domina a tentação de sucessivas (e algumas escusadas) participações como actor secundário. Todo um desperdício para quem está condenado a eterno protagonista.
3. No Sporting reencontrou o lugar, recuperou o prazer do jogo e voltou a ser o denominador comum do colectivo. Como se agiganta à medida que as responsabilidades aumentam, está a confirmar a aura de fenómeno com que saiu do Brasil. Um jogador fundamental pela segurança que proporciona atrás e pelo perigo que leva à frente; um miúdo com futebol adulto, que nasceu operário especializado (condições físicas excepcionais) e se revela, a cada dia que passa, um respeitado general com sentido estratégico (talento e liderança). Pelo modo como distribui, marca os tempos, traça a geometria e, em certos momentos, define o estilo, Rochemback é um futebolista precioso, que dá equilíbrio, acrescenta inteligência, é exemplo e oferece soluções tácticas para todos os gostos.
4. Se na fase defensiva ainda se dispersa e perde posição, razão pela qual é obrigado a recorrer a várias grosserias, de frente para a baliza adversária revela visão ampla e notável poder de síntese. Quando galga terreno na direcção da área, em acções individuais ou de apoios curtos, faz disparar o sinal de alerta máximo entre o exército contrário. Porque pega na bola com espantosa facilidade, esteja ela parada ou em movimento, é um perigo se o deixam ajustar a mira e puxar a culatra atrás; os disparos são fulminantes, a pontaria é certeira e a distância do alvo é apenas um pormenor. Perdidos dois anos em Barcelona, Fábio Rochemback retomou um processo de crescimento capaz de o conduzir ao nível de referência mundial na sua posição. Aos 22 anos, o tempo é um aliado; com tantas qualidades, basta que não tenha azar.
