O fundo da questão

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O fundo da questão
O fundo da questão

Nas recentes intervenções que fez na Soccerex, Bruno de Carvalho voltou a disparar contra os fundos, acusando-os de, entre outras coisas, “distorcerem a verdade desportiva”. O presidente do Sporting tem razão em exigir mais transparência e regulação a esta forma de financiamento tão usada pelos clubes portugueses, e seria bom que outros dirigentes tivessem a mesma preocupação – porque não saber de onde vem o dinheiro ou quem são os donos dos passes dos jogadores é meio caminho andado para arrastar o futebol para o mundo do crime.

Mas, na quarta-feira, à mesma hora e em dois cantos diferentes da Europa, ficou mais uma vez demonstrado que o recurso a fundos de investimento é o único mecanismo que permite aos clubes portugueses serem competitivos lá fora. O FC Porto, reforçado com diversos jogadores graças à ajuda de fundos, destruiu o BATE Borisov com 6-0. E, ironia das ironias, a grande figura foi Brahimi, um jogador que só está em Portugal graças à ajuda de um fundo. Na Eslovénia, e diante de um adversário do mesmo campeonato que o BATE Borisov, o Sporting deixou-se empatar nos descontos devido a dois erros de Sarr e Maurício, os centrais possíveis de contratar a um clube português que não recorra à ajuda de fundos de investimento.

O argumento da “distorção da verdade desportiva” cai por terra quando se quer jogar ao mais alto nível na Europa. Além das enormes diferenças na distribuição do dinheiro dos direitos televisivos por parte da UEFA, os clubes portugueses são obrigados a competir com ingleses, franceses e até italianos que recebem enormes injeções de capital por parte de magnatas mais ou menos extravagantes. Sem o envolvimento de fundos, jogadores como Falcão, Mangala, James Rodríguez, Ramires, Markovic ou Witsel nunca teriam passado por Portugal. E todos eles foram decisivos para os bons resultados das equipas portuguesas nos últimos anos, que levaram ao 5.º lugar no ranking de clubes da UEFA, que, por arrasto, permite que os dois primeiros classificados do campeonato entrem diretamente na fase de grupos da Champions.

Quebrar esta corrente seria esmagar o futebol português a um nível talvez abaixo do grego. É mesmo isso que queremos?

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