O futebol no estado mais puro

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O futebol no estado mais puro
O futebol no estado mais puro

1 Numa sociedade de aparência, que diviniza a imagem, se realiza com a superficialidade e se rege por necessidades mediáticas que debilitam os mistérios mais profundos do futebol como jogo, Héctor Herrera é uma bandeira de resistência. Para ele, o verdadeiro espetáculo é fazer tudo bem, independentemente de as câmaras detetarem ou não a perfeição de gestos e movimentos; das tomadas de decisão que têm objetivo definido, sempre para defender a equipa, acelerar o duelo ou desgastar o adversário. Se a televisão serve para dimensionar a estética dos maiores artistas e humilhar exageros dos grosseiros, o mexicano pertence a outro grupo - o dos discretos, vítimas maiores de leis capazes de alterar as raízes de um fenómeno que, nascido na rua, já atingiu o estatuto de indústria.

2 HH é um jogador tremendo, que não se equivoca nos caminhos e decide bem em qualquer circunstância ou zona do terreno; ocupa o espaço com critério, tem tempo de entrada aos lances e sabe colocar-se perante os adversários. É também notável a iniciar as transições ofensivas. Exímio condutor, é fabuloso vê-lo com a bola colada aos pés, em grande velocidade, entregando-se a quadros solitários pelo campo fora, estimulando também a participação de companheiros para tocar e ir buscar à frente; ou até lançando à distância, prova de que a sua presença abrange vasto raio de ação. É também de uma fiabilidade impressionante, eficaz do primeiro ao último instante, jogando com a mesma intensidade, sem quebra de ritmo, dinâmica e eficácia. Poucos como ele satisfazem os requisitos de esforço e inteligência; estatística e emoção; combate e talento.

3 Elemento preponderante de uma equipa cada vez mais segura nos processos, que começa a atingir a excelência com regularidade inusual, HH funciona como fonte de equilíbrio que reforça a segurança e impulsiona a criatividade. É a máxima referência estrutural do deslumbrante FC Porto de Julen Lopetegui, uma equipa que quando as coisas lhe correm bem (e correm muitas vezes) apresenta a silhueta de uma potência europeia: que prefere ter a bola mas sabe comportar-se quando não a tem; joga animada pela esperança de dar eficácia à beleza que orienta o seu projeto futebolístico mas assenta em cuidados para não se deixar surpreender; faz do futebol uma festa mas não se diminui quando a ação resvala para a guerra. O mexicano é um dos principais estabilizadores da máquina que, por ter funcionamento coletivo tão perfeito, não reprime o talento e a liberdade individual.

4 Para HH, apesar dos crescentes apelos exteriores, o fenómeno deve ser vivido por dentro e não por fora; privilegiar camisola, balneário, treino e jogo, e relativizar as crescentes exigências de marketing, publicidade e demais intromissões de uma imprensa cor-de-rosa cada vez mais consolidada no mundo do pontapé na bola. Em tempos marcados pelo individualismo, HH é indiferente às leis do mercado. Recusa subjugar-se à ditadura da imagem e faz da profissão um sacerdócio de valores em desuso: promove o orgulho pela profissão; entende a equipa na lógica da família; dá prioridade ao sentido de representação e orienta-se pela verdadeira essência do que significa competir e vencer. Um futebolista assim não ganha sozinho. Mas há vitórias que só são possíveis se tivermos um homem como ele do nosso lado.

O tempo corre a favor de Pizzi

Era um extremo de raiz que jogava em toda a frente de ataque. Tinha, porém, um futuro limitado

Pizzi confirmou, num jogo de altíssimo risco, aquilo que vinha sugerindo desde janeiro: que tem quase todas as qualidades para ser médio-centro de uma grande equipa. Perante um trio temível (Danilo, Tiba e Micael), juntou as pontas entre Samaris e Jonas (o brasileiro foi importante no equilíbrio dado atrás) e liderou a manobra que, feitas as contas, decidiu o jogo com o Sp. Braga: não permitir que o adversário ativasse as saídas de trás. O tempo corre a favor dele. Vai ser um médio-centro de eleição.

Grego que foi o dono do jogo

A pressão para fazer o que lhe era pedido impediu-o de se expressar logo à altura do talento

Samaris passou boa parte da época enredado em teia da qual só agora se libertou. Jorge Jesus pedia-lhe para cumprir o guião da posição 6 e ele, na dúvida, procurava ser perfeito a fazer o que mais gosta. Resultado: nem uma coisa nem outra. Vem isto a propósito da exibição do antigo jogador do Olympiacos frente ao Sp. Braga, na qual selou, definitivamente, a conclusão do processo de aprendizagem da função. O grego foi assombroso: travou qualquer intenção ofensiva do adversário e agilizou muitas ações de ataque dos encarnados. Foi o dono do jogo. Valeu a pena esperar por ele.

Desenlace fatal no futebol azul

Há equipas que, em sintonia, não apresentam resultados tão bons como os do Belenenses

Rui Pedro Soares tem efetuado bom trabalho na SAD e Lito Vidigal é o melhor treinador do clube desde Jorge Jesus. No que têm feito por si, os resultados estão à vista: a SAD, que estava moribunda, recuperou saúde e esperança; a equipa de futebol, que Lito salvou em 2013/14, luta agora por um lugar europeu. Maior dilema: num clube chega sempre o momento em que, para dar o passo em frente, é preciso que presidente e treinador harmonizem ideias, discurso e comportamento. Não sendo possível, a rotura é inevitável. Quem perde? O Belenenses, claro.

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