O futuro de Jesus e Lopetegui
1 Saber, teimosia e liderança forte são características comuns a Jorge Jesus e Julen Lopetegui. JJ encurtou distâncias para o FC Porto, ao ponto de, pela primeira vez em mais de vinte anos, equacionar-se a hegemonia azul e branca; JL devolveu o dragão à Europa (apesar de Munique) e criou uma base que, em condições normais, devia merecer segunda oportunidade. Um obstáculo se levanta: o investimento portista foi orientado pela urgência de travar a aproximação do rival. JL construiu equipa dispendiosa para evitar o segundo título consecutivo da águia e tudo indica que vai falhar. Está visto que, afinal, os três anos de contrato não lhe garantem reconhecimento, condescendência e muito menos um futuro de azul e branco. Já JJ mantém, nos corredores da Luz e não só, quem aguarde novo fracasso para legitimar o início de um novo ciclo no Benfica. Nada está definido.
2 JJ está a consolidar-se como figura da história encarnada, porque ultrapassou Otto Glória em número de jogos no campeonato e apetrechou-se ainda com mais argumentos para a avaliação de seis anos no banco da águia. Independentemente de vir a ser campeão e ganhar a Taça da Liga, submeter-se-á ao juízo final armado até aos dentes com estatísticas (os números e os resultados mais exuberantes dos últimos 25 anos); opiniões (só por má vontade não coincidem no reconhecimento de que promoveu o melhor futebol das últimas décadas); e sentimentos (tornou-se um ídolo absoluto para a esmagadora maioria dos adeptos). Ao fim de meia dúzia de anos, com oito títulos conquistados, que ainda podem ser dez (nos 22 anos anteriores, desde 1986/87, os encarnados somaram onze até à chegada de JJ), está muito próximo do consenso.
3 Apesar disso, continua a haver quem ponha em causa não o treinador mas o caprichoso, o provocador, o indomável, prova da existência de uma casta que, resignada à recuperação do terreno perdido para o FC Porto, preferia render-se a um homem com tradição benfiquista, formado em Buckingham, que tocasse piano, falasse francês e recitasse os Lusíadas nas conferências de imprensa. JJ sente-se num plano superior e não teme os inimigos naturais dos treinadores comuns, razão pela qual é de uma insolência nem sempre bem-educada com os habituais carrascos dos generais do banco. Deve ser difícil viver a seu lado, suportar-lhe os maus-humores, as teimosias, os caprichos e todo um estilo de quem se julga acima do bem e do mal. Será ainda pior abordar o futuro com a sombra imensa do seu fantasma.
4 JL começou por desfasar-se da cultura Porto e, na pele de líder todo-poderoso, estimulou conflitos que só o prejudicaram; depois agiu com a sobranceria de quem se julgou iluminado num futebol de trevas e obscurantismo; no fim, muitos irão avaliá-lo apenas pelos resultados. Não é justo. Do ponto de vista do trabalho e das ideias, o espanhol construiu equipa que praticou do melhor futebol visto em Portugal e na Europa. Um conjunto que, no seu melhor, conjugou muitos dos elementos necessários à expressão majestosa de uma grande potência: ordem e aventura; organização coletiva e liberdade individual; entrega e talento; responsabilidade e risco. Apesar dos erros e dos prováveis zero títulos, o primeiro ano foi, não um desastre definitivo, mas o ponto de partida de uma relação cujo futuro não deve esgotar-se na crueza de resultados transitórios.
Montero tem classe superior
Há jogadores de grande talento que são obrigados a uma espécie de prova de vida sistemática
Montero pertence ao lote daqueles sobre quem é difícil ser convicto e duradouro na defesa do seu futebol elegante e eficaz. Quando dá sinais de cristalizar como jogador de topo, desaparece de circulação e suscita dúvidas indignas para a qualidade que exibe. Seguem-se tempos de apagamento, distância e rendição. Desta vez a sentença soou definitiva: acabara o seu tempo no Sporting. A exibição com o Moreirense fez voltar o processo ao início: é avançado de uma classe superior. Será mesmo?
RQ7 no banco? É inexplicável!
O FC Porto visitou a Luz com um dos seus jogadores em melhor forma no banco de suplentes
É inexplicável que Quaresma tenha iniciado o clássico de fora. Depois de ser um dos responsáveis pela vitória sobre o Bayern (exibição grandiosa, com dois golos), seguiu-se o que parecia ser regime de poupança com a Académica e na deslocação a Munique, onde saiu ao intervalo, com 0-5 no marcador. Afinal, um dos poucos elementos com história no clube e que conhece o peso emocional dos duelos com o Benfica, não fazia parte dos planos para o jogo do título. Há momentos estranhos no futebol. Quando o treinador corta as asas à equipa e depois quer que ela voe é só um deles.
Hazard já está a ambientar-se
Ciclicamente, o futebol mostra que a qualidade individual não se esgota em CR7 e Messi
Eden Hazard foi eleito melhor jogador da liga inglesa. Justo prémio para quem se expressa com talento que, em determinados momentos, se confunde com genialidade pura e simples. A distinção pode ser interpretada como primeiro passo para aspirar a prémios ainda mais relevantes – e não é disparatado pensar que, um dia destes, possa discutir a Bola de Ouro. Aos 24 anos, Hazard está a ambientar-se às glórias individuais, o que é bom sinal, mesmo faltando-lhe algumas qualidades de que são feitos os deuses dos estádios: carisma, autoridade e liderança.
