O gestor de talento
Diz-se que a necessidade aguça o engenho, e essa pode também ser uma das razões para o sucesso de Rui Vitória no V. Guimarães. A cumprir a quarta época no comando técnico dos vimaranenses, o treinador encontrou um clube com dificuldades financeiras e resolveu apostar na prata da casa com a aposta em jovens talentos. Em todos os anos teve de reconstruir o plantel, e a valorização de ativos deu frutos. É atualmente o melhor treinador português a trabalhar a formação de um clube.
É bom dizer que esta filosofia de trabalho já vem de trás. Rui Vitória passou pelas camadas jovens do Benfica e usou os mesmos princípios em Fátima e Paços de Ferreira, obtendo resultados e catapultando novos nomes para o futebol português. A título de exemplo, pelas suas mãos já passaram os portistas Ricardo Pereira, Tiago Rodrigues e Sami, os sportinguistas Paulo Oliveira e Heldon, os benfiquistas Pizzi e Nélson Oliveira, e ainda bons valores da nossa Liga como David Simão, Mário Rondón ou Marco Matias, entre outros.
A recente vitória sobre o Sporting vem apenas confirmar a capacidade do treinador em potenciar novos talentos. Aproveitando recursos que no ano passado andavam pelo Campeonato Nacional de Seniores ao serviço da equipa B, Rui Vitória conseguiu montar novamente uma equipa aguerrida com capacidade de bater o pé às equipas mais fortes.
A par do Marítimo, o V. Guimarães tem sido a equipa que melhor rentabiliza a aposta em jogadores da equipa secundária, dando-lhes espaço competitivo e experiência, para depois serem lançados na formação principal com maior rodagem e impacto mais imediato. E aqui o olho clínico do treinador torna-se decisivo, ao conseguir identificar valor e dar as oportunidades nos momentos certos a jogadores, que até agora poucos conheciam, como João Afonso, Bernard, Hernâni, Alex ou Tomané, prontos a despontar.
Mais do que isso, os resultados desportivos e financeiros. Depois da conquista da Taça de Portugal, a valorização de ativos rendeu algumas vendas importantes que ajudaram a aliviar a tesouraria do clube. E agora, com um orçamento muito mais baixo do que os três grandes, vemos o V. Guimarães nos lugares cimeiros da tabela com todo o mérito. E este feito só foi alcançado porque Rui Vitória é um treinador competente, capaz de exponenciar potencial das suas equipas.
É um técnico que dá resposta às necessidades do presente, sem esquecer o futuro. Um gestor de recursos humanos, sem medo de errar e com vontade de arriscar, ciente de que nem todas as apostas poderão dar certo, mas convicto de que o talento de muitos dos jovens que o rodeiam se poderá afirmar.
Rui Vitória está a fazer escola no futebol português. Equipas como o Belenenses e o V. Setúbal começam a seguir este caminho. E, mais cedo ou mais tarde, todos os clubes terão de começar a focar-se na sua formação e no aproveitamento de jovens talentos, em função de um clima financeiro cada vez mais apertado. Quem o fizer mais depressa melhor preparado estará para os anos que se seguem.
O trabalho de Rui Vitória merece todos os elogios. Fez mais com menos e não há muitos que se possam vangloriar de ter sucesso nestas circunstâncias. Tem perfil para voos mais altos e num clube de maior dimensão a sua marca poderá ser ainda mais forte. O tempo far-lhe-á justiça.
O Craque - carregador de piano
Uma equipa vive de equilíbrios. Por isso, além do talento, também são precisos jogadores que, embora menos dotados tecnicamente, possam dar tudo dentro de campo, correr até ao último minuto, pressionar, jogar e fazer jogar. Este é o papel de André André no V. Guimarães, um verdadeiro carregador de piano com excelente leitura de jogo, que sabe sempre onde se posicionar para defender e atacar, com qualidade de passe e capacidade de pressão. O bom momento vimaranense também passa muito pelos seus pés.
A jogada - ronda positiva na Champions
O FC Porto cumpriu um dos objetivos da época, enquanto Benfica e Sporting viram as suas esperanças renovadas no que respeita ao apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Todos venceram os seus jogos, um feito que, por si só, não ocorre muitas vezes. Uma jornada positiva para as equipas portuguesas na Champions que, além de pontos, também rendeu milhões. Seria notável para um país como o nosso, sem o poderio financeiro de outros, conseguir ter três equipas na fase seguinte da prova.
A dúvida - com ou sem Enzo Pérez?
A composição do meio-campo do Benfica tem sido uma das maiores dores de cabeça de Jorge Jesus durante esta época, ainda à procura do parceiro ideal para o imprescindível Enzo Pérez no miolo do terreno. De Espanha surgem agora uns zunzuns de que o médio argentino poderá estar de malas aviadas para Valência em janeiro. A confirmar-se, este cenário seria uma baixa muito difícil de colmatar no xadrez encarnado. Terá Jesus de voltar a “inventar” novas soluções para o seu meio-campo?
