O goleador e a orquestra

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1. Porque não frequentou a mesma escola e lhe negaram o acesso aos grandes mestres, o caminho que o levou dos Açores ao topo da Europa foi mais duro e difícil; porque lhe faltava suporte académico e não se formou nas grandes universidades, a cruzada não tinha, à partida, êxito garantido; porque possuía confiança quase insolente nas suas capacidades, lançou-se à conquista do Mundo confiante na fiabilidade das armas de fabrico caseiro que o acompanhavam: força interior, ambição, coragem, disponibilidade para trabalhar e um talento muito peculiar. Assim começou e venceu a dúvida; assim prosseguiu e deu força à esperança; assim se transformou num dos mais extraordinários avançados da história do futebol português, referência indiscutível no panorama internacional e candidato a melhor futebolista em actividade no continente europeu.

2. Pauleta chegou à Selecção como parente afastado da geração de ouro e atingiu os 30 anos como um dos seus mais ilustres representantes. É um autodidacta bem sucedido que recorreu ao poder de observação para aprender e cresceu orientado pelo instinto; que triunfou pela voracidade própria dos goleadores e continua a recusar a superficialidade como forma de vida; uma gigantesca figura que se adapta a qualquer estilo e satisfaz todas as escolas futebolísticas, sempre a partir de ideias claras e processos lineares. Se o equilíbrio de uma equipa se constrói com a harmonia de virtudes distintas, ele cumpre a sua parte adicionando músculo, agressividade e obsessão pela baliza adversária. À escassez de imaginação contrapõe a raiva de lutador indestrutível. Quando lhe recordam a ausência de magia vinga-se marcando golos.

3. Se Nuno Gomes estende o bordado da construção até à zona do toque final, altruísmo que o aproxima do jogo mas o afasta do golo, Pauleta dá profundidade ao carrossel, indiferente ao primeiro impacto que sugere a imagem de corpo estranho ao colectivo. Como abre linhas de passe nas costas da defesa, permite diversificar a progressão feita, normalmente, de toques curtos e acções individuais; porque tem presença na área (é forte, directo, oportuno, preciso e letal), constitui solução perfeita num sistema em que os extremos desempenham papel determinante. Depois de um período de clara incompatibilidade - seguia apenas a intuição quando os outros apelavam à memória de uma vida em comum -, Pauleta delimitou o seu espaço e conquistou um estatuto na equipa nacional só comparável a Figo, Rui Costa e Fernando Couto.

4. Num país habituado a selecções que só brilhavam longe da grande área contrária, Pauleta é o emblema de um novo estilo: acrescenta pontaria à arte e dá finalidade ao ritual da posse de bola; despoja o adorno da engrenagem e estabelece a baliza como único objectivo razoável; dimensiona com tiros certeiros as sinfonias da genial orquestra que tem nas suas costas e rejeita liminarmente alimentar conversas que resvalem para lengalengas sem sentido. Quando marca um golo, abre os braços, sorri e voa como um menino feliz, celebra a vitória social e reclama direito ao afecto. É a manifestação de ternura que o remete para a infância e lhe desperta as memórias da conturbada viagem. Aquela que o trouxe ao pedestal como herdeiro legítimo de Peyroteo, José Águas, Matateu, Eusébio, Manuel Fernandes, Nené, Jordão e Gomes.

A selecção, o colectivo e as estrelas

A estratégia de Portugal começa e acaba no estímulo aos duelos individuais em todo o campo (culpa do treinador que não define modelo); como não há quem os vença, a equipa anda à deriva (culpa dos jogadores que se resignam à desinspiração). Dito de outra maneira: a Selecção Nacional tem funcionado como um colectivo desarticulado, no qual as estrelas não aparecem para salvar a equipa, nem a equipa aparece para ajudar as estrelas. Enquanto isso os adeptos assobiam. E o pior é que têm a razão.

O nome da estabilidade

Raul Meireles fez mais pela unidade dos sub-21 do que Viana, Tiago, Bosingwa e Carlos Martins nos dois jogos. Estabilizou o conjunto, orientou a manobra defensiva e deu segurança à saída para o ataque. Uma exibição espectacular de um grande jogador de equipa.

Nem tudo foi mau

Frente à Grécia, nem tudo foi para esquecer: o desaire não esteve relacionado com a tão badalada incompatibilidade entre Rui Costa e Deco. Não se provou o contrário, mas serviu para colocar a dúvida de outra maneira: será que pode haver lugar para os dois?

Aconchego de génios

Figo falhou uma grande penalidade e a recarga também. Deitou as mãos à cabeça, respirou fundo e continuou a jogar como se nada tivesse acontecido. A reacção ao erro é uma característica que distingue os grandes jogadores. Momentos maus todos têm. Mas poucos, quando falham, têm o aconchego de uma vida inteira sendo génios.

Princípio e fim

Com a França, Ronaldo assumiu toda a despesa criativa e foi três em um: cumpriu a parte que lhe cabia e compensou o desacerto de Quaresma e Postiga. Lançou os pressupostos do jogo (ditou a estratégia defensiva do adversário), começou a história (primeiro golo) e colocou-lhe ponto final (marcou o último "penalty"). Um verdadeiro fenómeno.

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