O golo do Leiria
Os jogadores do Leiria mereceriam ter marcado um golo na Luz. Um golo não, dois. Dois golos pela sua própria honra. Para que o seu ego ganhasse um prémio. Até porque não ganham mais nada: nem pontos, nem dinheiro, nem futuro. Assim teria sido se o Mundo fosse justo. Mas se o Mundo fosse justo, o presidente do Leiria também merecia ter sido goleado.
Em Portugal toleram-se salários em atraso. Não é virtude nem defeito, é feitio. Noutros países os trabalhadores vão para os tribunais, em Portugal vão para os multibancos ver se o dinheiro já entrou na conta. Em grande parte, assim será por falta de alternativa, por não se ter para onde ir. Mas não se duvide: salários em atraso são uma forma de abuso. Nas empresas. Ou nos clubes de futebol.
Meio ano de salários em atraso não pode ser tolerado com um encolher de ombros. É uma violência. E o presidente da União de Leiria, que para desplante final ainda disse umas enormidades contra os jogadores, devia comparecer perante um juízo qualquer para mostrar a excelência da gestão que conduziu ao descalabro. Aparentemente, foi mais olhos que barriga. Custos insuportáveis a contar com receitas impossíveis. Não lhe ficava mal fazer ao menos uma coisa: pedir desculpa.
O caso do Leiria é o mais descarado destes tempos em que os clubes testam as leis da matemática financeira. Ricardo Costa pediu aqui a intervenção do Estado na regulação, Daniel Oliveira também pediu a intervenção do Estado – pelos tribunais. O fair play financeiro é mais do que um emblema de bom comportamento, é uma urgência contra o mau comportamento. Sem punição não há emenda.
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