O guerrilheiro que vale ouro

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1. A cabeça em baixo e os movimentos desarticulados revelam a ausência de preocupações estéticas; a condução não é orientada segundo parâmetros geográficos rígidos, tem as marcas da vertigem e desperta toda a gama de sensações electrizantes. Ataca a bola sem reservas, o desarme é questão de tempo, a zona onde se tomam as grandes decisões é o destino da viagem; na altura de definir o lance, quando era legítimo detectar a expressão cansada de quem correu quilómetros para ali chegar, mostra o olhar sereno que o denuncia como jogador de corpo inteiro - atenção, porque o golo não anda longe. Angel Cappa, cúmplice de Menotti e Valdano na eterna reflexão sobre o jogo, disse: "Um atleta quando chega acaba; um futebolista quando chega começa." Derlei é atleta porque chega sempre e futebolista porque acaba tudo o que começa.

2. Sendo um jogador explosivo, conhece as virtudes da desaceleração; estando apto a levar até ao fim as iniciativas individuais, é sensível às vantagens do jogo associado; tendo o golo como objectivo, não reclama o exclusivo da assinatura. Suportado num perfil caracterizado pela amplitude funcional, Derlei mexe-se num raio de acção que abrange todo o espaço de ataque a partir da linha de meio campo, transformando-se num agitador que desestabiliza em largura e profundidade. Por temperamento e capacidade técnica é um avançado com visão de centro-campista: hábil a conduzir a bola; lúcido na forma como clarifica as acções de aproximação à baliza e versátil nos argumentos para resolver as dificuldades - o drible tem saída para ambos os lados, o remate é fácil com os dois pés.

3. Soldado corajoso, que cumpre ordens, defende convicções e adapta o saber a cada caso específico, Derlei não conhece o significado de palavras como desânimo, contemplação, cansaço ou desistência. No processo de aperfeiçoamento encontrou respostas para muitas questões pendentes. Aprendeu, por exemplo, que a velocidade só é um trunfo acompanhada pela precisão; que a dinâmica sem inteligência pode ser um desastre para o colectivo; que a presença excessiva começa por ser uma bela prova de solidariedade mas se não tiver fundamentos claros é apenas o primeiro passo para a desarrumação da casa. Derlei emociona pela disponibilidade revelada em campo, comove pela dedicação à causa e, no fim, tranquiliza dando sentido ao que faz.

4. Ao contrário de outros cuja felicidade só está dependente da paternidade do último toque, não precisa de golos para ser feliz nem de protagonismo para delimitar o seu espaço. É um guerrilheiro infiltrado em território inimigo, que pode agir sozinho ou acompanhado; jogar como ponta-de-lança ou descaído para os flancos; que não tem medo das alturas (é temível no jogo aéreo) e domina todas as armadilhas do percurso mesmo as que encontra longe do objectivo final - utiliza com mestria as diagonais para encurtar caminho, sugerir a participação dos companheiros ou aplicar ele próprio o remate. Derlei é daqueles avançados feitos de energia, resistência e recursos técnicos; um jogador de ouro que, em estado de graça, pode ditar o rumo de um campeonato ou até cometer a proeza impensável de decidir uma Taça UEFA.

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