Paulo Barreira
Paulo Barreira

O impacto do destreino: as consequências inevitáveis para os futebolistas

Paulo Barreira, de 37 anos, é fisioterapeuta do Arsenal e tem um Doutoramento em Ciências do Desporto - Vertente de Biomecânica na Universidade Liverpool John Moores, em Inglaterra. O português, que também já passou pelo Liverpool, explica a Record o impacto da paragem dos campeonatos. Paulo Barreira diz que, a partir desta semana, há consequências inevitáveis na condição física dos futebolistas.

No momento em que se discutem os timings de um possível retorno a eventos competitivos nas respetivas ligas nacionais, será importante considerar o impacto que estes períodos de paragem poderão ter na adaptação ao treino e competição que os atletas apresentavam anteriormente, ou em linguagem mais corrente, a sua condição física.

Devido à necessária interrupção dos eventos competitivos de futebol, e a suspensão do regime de treino que os clubes puseram em prática para fazer face ao presente desafio de saúde pública que se atravessa a nível global, muitas tem sido as partilhas, nomeadamente pelo uso de redes sociais, de atletas de futebol em regime de treino individual no seu domicilio.

A iniciativa individual por parte do atleta, ou planeada pelo clube de treino em domicílio é meritória. É evidente o sentido de responsabilidade não só por parte do atleta que se vê privado da sua rotina de treino, mas também de um conjunto de profissionais, nos quais se incluem profissionais de ciências do desporto (vulgo preparadores físicos), nutricionistas, fisioterapeutas e médicos, que mantém uma preocupação natural com os efeitos que o destreino neste período possa ter no atleta.

Dependendo do conteúdo do programa e dos recursos que o atleta tem no seu domicílio, este treino poderá ter inúmeros benefícios, tais como atenuar o impacto do destreino na composição corporal, estimular diferentes sistemas energéticos usados no futebol atenuando um declínio (que seria mais acentuado) da sua capacidade aeróbia e anaeróbia, nas vertentes de resistência e potência, e manter algumas expressões de força. Além disso, e não menos importante, ajudam a preencher a rotina diária do atleta mantendo-o ativo e assim possivelmente contribuir para uma boa saúde mental.

A isto junta-se o planeamento nutricional, uma vez que o dispêndio energético nestes períodos tenderá a ser menor que em períodos de treino e competição, e por isso a ingestão calórica e a proporção de nutrientes da dieta do atleta poderão sofrer ajustes para favorecer a manutenção da sua composição corporal.

Contudo, e apesar de tudo isto, quanto tempo podem efetivamente os atletas de futebol ficar sem a prática de futebol e os regimes de treino num campo de futebol até que algumas das suas qualidades físicas entrem em declínio?

De uma forma geral, as consequências do destreino em atletas podem começar a manifestar-se a partir de duas semanas. Concretamente em atletas de futebol, períodos curtos de uma semana de destreino parecem não representar qualquer problema do ponto de vista físico. Inclusive, estes períodos muitas vezes designados de ‘tapering’ podem melhorar a performance em sprints curtos, diminuindo ligeiramente a capacidade de realizar sprints repetidos, e não tendo impacto em outras aptidões tais como a resistência aeróbia, sprints de 20 e 30 metros, agilidade e força.

No entanto, com duas semanas de inatividade, a capacidade aeróbia (obtenção de energia com o uso de oxigénio) poderá já ter iniciado também o seu declínio em alguns atletas. À medida que se entra na terceira e quarta semana, cenário que se verifica por exemplo no período de férias no final da época, o declínio acentua-se, com reduções significativas em todas as vertentes, seja as de expressões de potência muscular em gestos de curta duração como saltos, como no tempo de sprint, capacidade de realizar sprints múltiplos com pouco tempo de paragem, e a capacidade aeróbica. 

Considerando também parâmetros estruturais tais como o que se verifica no tendão do atleta, que além de condicionarem a sua performance contribuem para o estado de saúde musculoesquelética, tempos de inatividade também não são benéficos uma vez que esta estrutura depende de um intervalo de cargas ótimas para se manter funcional. Com a inatividade prolongada de quatro e oito semanas, ocorre uma diminuição da sua capacidade de aguentar forças longitudinais ou rigidez, respectivamente.

Ou seja, se os atletas mantiverem suspensa a sua prática de futebol num período superior a três semanas, são esperadas repercussões significativas no seu condicionamento específico para a prática de futebol, com risco de impacto futuro não só nos seus níveis de performance, mas também no risco de incidência de lesões. E neste cenário o regime de treino executado em domicílio, ainda que benéfico, apenas atenua algumas das consequências da ausência do treino dos relvados.

Mesmos nos casos de atletas de elite em que os recursos em domicilio são vastos, pedalar numa bicicleta mesmo que em regimes intervalados e de grande intensidade recriando a natureza dos esforços do futebol, não pressupõe uma interação de forças entre ele e o solo, factor determinante na diferenciação como o corpo armazena, reutiliza ou produz energia, e que embora atenue alguns efeitos do destreino de futebol, certamente não os evita nem permite ao atleta um retorno imediato à competição sem declínio de performance e risco aumentado de lesão. Mesmo certos exercícios como a corrida em tapete, em velocidades elevadas e de forma intervalada, nunca poderão replicar o efeito que jogos em espaço curto e de curta duração tem enquanto modalidade de treino, ainda que possam atenuar algum do sofrimento metabólico e musculoesquelético no retorno a essa atividade.

O futebol é uma atividade física constituído por tarefas com imprevisibilidade e obrigando o atleta às mais diferentes reações durante o decorrer do jogo. Para corresponder o atleta é obrigado a executar as mais variadas ações, que incluem gestos de mudanças de direção, a diferentes intensidades e combinadas com esforços em corrida a diferentes velocidades. A combinação destes esforços enquanto o atleta propulsiona o seu corpo no campo gera uma interação de forças entre o atleta e o solo que por sua vez determina o dispêndio energético tendo em conta o status em que se encontram tendões e músculos no que respeita à utilização e produção de energia. Para isso, não só do ponto de vista biomecânico exige ao sistema musculoesquelético a manifestação de diferentes tipos de forças como utiliza todos os sistemas energéticos combinados entre si, aeróbio e anaeróbio, este último na sua vertente láctica a aláctica.

Por estes motivos, a prática de futebol propriamente dito resulta numa adaptação altamente específica. Este princípio funciona com qualquer desporto. Apesar dos desportistas de elite serem indivíduos altamente treinados, ele tem um grande grau de especificidade para o seu desporto em particular, e estarão adaptados para outros desportos em função das semelhanças existentes entre alguns gestos desses desportos e o seu próprio.

Num exemplo mais radical, será tão difícil para um atleta de fundo como um maratonista subitamente aguentar 90 minutos da prática de futebol sem um declínio de performance como para um futebolista tentar correr a maratona sem declínio de performance, apesar de serem dois atletas de elite dentro das suas modalidades. Apesar de neste exemplo nem o maratonista efetuar mudanças de direção e sprint na sua modalidade, ou o futebolista realizar corrida contínua por longos períodos, ambos de facto correm nas suas modalidades. No entanto, a diferença de forças efetuadas, a forças de reação ao solo a que estão sujeitos, a utilização da energia pelo seu corpo, e consequente o predomínio de sistemas energéticos serão diferentes.

De momento, e quando as principais ligas europeias se preparam para enfrentar um período de paragem equivalente no mínimo ao habitual período de férias de final de época, importará considerar que serão necessárias algumas semanas para que os atletas realizem o equivalente a um regime de treino de pré-época. Este inclui um retorno gradual ao volume e intensidade de treino e competição, e não é expectável que seja inferior a três semanas em duração, sendo mesmo assim este prazo ambicioso na preparação do atleta, uma vez que habitualmente corresponderá a um período em que na habitual pré-época em que se estão a realizar jogos treino, muitas vezes ainda com exposição controlada dos atletas em termos de tempo de jogo. Logicamente, quanto mais tempo os atletas permanecerem fora dos relvados, ainda que por força maior da presente circunstância, maior serão as suas necessidades em termos de tempo de preparação.

Acomodar um período de preparação após esta interrupção será fundamental, não só no sentido de garantir o retorno à competição dentro dos parâmetros mínimos de intensidade expectável, mas sobretudo para proteger a saúde dos atletas no que a lesões diz respeito. Esta questão deverá obrigar a uma reflexão uma vez que por si só o calendário de jogos que terão pela frente, a presente indefinição com um possível curto intervalo de tempo entre o final da presente temporada e o inicio da seguinte, irá certamente potenciar o risco de lesão, o que gera por sua vez indisponibilidade para treinar e jogar, com repercussões desportivas e financeiras para os clubes, estas últimas já de si agravadas pela presente situação.
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