O inspirador de um sonho
1. Porque descobre espaço num abrir e fechar de olhos, tem ideias claras e objectivos definidos, vai logo direito ao assunto; na abordagem aos adversários, feita com a altivez de quem confia cegamente em si próprio, a bola segue colada ao pé direito; por saber o que pretende e como chegar ao destino, o perigo aumenta a cada instante da viagem. Sendo ainda um projecto por concluir, Simão já possui requisitos sublimes: a técnica é extraordinária e a imaginação não tem limites; a velocidade explosiva (sabe gerir travagem, arranque e mudança de direcção) é acompanhada pela precisão milimétrica de cada gesto; assente em inesgotável criatividade individual, conhece os segredos colectivos que alimentam a rotina e permitem jogar com mais segurança.
2. Futebolista que responde com eficácia perante a estatística (assistências, golos, passes, remates…) sem ferir a sensibilidade do adepto (as emoções não se reduzem a números), Simão soube interpretar todas as etapas da carreira: teve serenidade para recusar depressões à saída de casa; não se deslumbrou com a promessa de futuro grandioso no Sporting; aprendeu lições e foi atrevido ao reclamar o direito de ser feliz, recusado em Barcelona. No Benfica, onde chegou também como troféu de caça, tem escalado os degraus que o conduziram ao coração dos adeptos e vão acabar por colocá-lo no pedestal de símbolo de um tempo. Se para trás tinha uma vida construída à volta de talento, confiança e inteligência, chegou agora a vez de agregar liderança e autoridade.
3. Referência técnica no lugar de extremo, com efeitos práticos na Selecção (conquistou definitivamente o seu espaço), Simão está no fim de uma época tremenda, lançada a partir do caso que pôs à prova a sua maturidade como homem. "Os jogadores estavam reunidos; uns jogavam às cartas, outros contavam histórias de férias, quando um deles (Keizer) disse bruscamente: 'Vamos lá, malta, temos de escolher o capitão'. Pensava eu que tinha a confiança de todos e era um capitão considerado... Ora os meus camaradas votaram contra mim." Estas são palavras amarguradas de Johan Cruijff no Verão de 1973, explicando as razões por que decidiu trocar o Ajax pelo Barcelona. Tinha 26 anos, não consta que fosse menino mimado, era o líder natural da grande potência e não resistiu à desconfiança nascida no interior do grupo.
4. Simão sofreu mas não se distraiu; percebeu a mensagem e reciclou a forma de estar no grupo; lamentou a desfeita mas não se inferiorizou: moderou ímpetos, retemperou forças e deitou mãos à obra. Em jeito de balanço, acentuou a imagem de bandeira do projecto encarnado e de inspirador de um sonho alimentado com qualidade, saúde, rendimento, atitude e juventude. Na final que deu ao Benfica o único título em oito anos, quis o destino que o ressalto em Paulo Ferreira o apanhasse pelo caminho; porque a bola tem caprichos que não se discutem, naquela trajectória fortuita esteve implícita a definição do herói capaz de personificar a magia do momento. A escolha recaiu em Simão, prova de que, para lá de caprichosa, a bola também sabe fazer justiça.
Passe curto
No lugar certo. No último fôlego benfiquista para atingir o segundo lugar no campeonato e ganhar a Taça de Portugal ao FC Porto, Miguel recuperou a ideia segundo a qual se sente melhor a extremo do que a lateral. E agora, depois da experiência adquirida como defesa, tem-se revelado um jogador mais completo no desempenho das velhas funções.
O fim do pesadelo. Se a defesa foi pesadelo cíclico, o sucesso benfiquista assentou em grande parte na segurança do sector recuado. Ricardo Rocha recuperou estatuto e Luisão provou ser melhor do que parecia. Diria mais: muito melhor.
Tirar a camisola. Sokota foi o sacrificado pelos reajustamentos de Camacho (em Alvalade tinha sido Nuno Gomes). Saiu zangado e tirou a camisola como protesto, a mesma forma utilizada para festejar os golos com os quais distribui felicidade. Por ser calado, comunica assim. Também está certo.
Um final em beleza. Moreira sofreu um golo de ressalto frente ao FC Porto (o que não é bom), o primeiro desde que assumiu a baliza do Benfica (o que é notável). Foi convocado para os Sub-21 (normal) e para o Euro'2004 (surpresa enquadrada pela justiça). Acaba em grande a época do segundo guarda-redes da SuperLiga 2003/04. Logo a seguir a Vítor Baía.
O bicho que mordeu em Fyssas
Pegou na bola e partiu para a grande área com a convicção de um iluminado; pediu ajuda a Nuno Gomes e foi receber mais à frente; tirou o guarda-redes do caminho, rematou em dificuldade, com o pé direito, mas a bola não entrou. Reagiu bem à introdução de novo obstáculo, fez um último esforço e rematou com o pé esquerdo. O golo de Fyssas ao FC Porto sugere uma pergunta (que bicho lhe mordeu?) e um aviso (ele que nem sonhe repetir a graça a 12 de Junho, na abertura do Euro'2004).
