O Jogo dos direitos humanos – um exemplo que chega da Argentina
O futebol sul-americano é, historicamente, um espelho fiel das tensões, paixões e transformações das suas sociedades. No entanto, no século XXI, o papel dos clubes de elite começou a transcender o plano puramente competitivo para se transformar num motor de contrapeso e evolução cultural. Neste cenário, o Racing Club, um dos gigantes da Argentina, consolidou-se como uma instituição pioneira a nível mundial na articulação de políticas sociais e humanitárias. Através do seu Departamento de Género e Direitos Humanos, criado durante a gestão do presidente Víctor Blanco, a "Academia" de Avellaneda edificou uma experiência inédita que redefine o significado da integridade no desporto-rei.
Esta área do clube promove uma transformação cultural profunda que visa erradicar a violência, o racismo, a xenofobia e a discriminação de género. A premissa de trabalho implementada é clara e assertiva: o futebol não pode funcionar como um território de exclusão isolado dos problemas da comunidade. O clube não se resume aos noventa minutos de um jogo no fim de semana; é uma escola de cidadania e um espaço de resistência cultural onde a memória deve ser uma prática diária, defende a equipa. Sob esta visão, as temáticas de direitos humanos integram-se transversalmente na vida do clube, desde a formação obrigatória da Direção até aos plantéis principais, equipas técnicas e escalões de formação.
A atividade do departamento assenta firmemente no compromisso histórico da sociedade argentina com os valores da Memória, Verdade e Justiça. Um dos marcos mais significativos e com maior impacto desta gestão foi o projeto de restituição de cartões de sócio a adeptos desaparecidos durante a última ditadura militar. A iniciativa consolidada pelo presidente Víctor Blanco exigiu uma rigorosa investigação documental nos arquivos históricos da instituição para devolver simbolicamente a dignidade e a ligação formal àqueles que foram vítimas do terrorismo de Estado.
Relativamente a este processo de reparação, destacamos a justificação do clube: "Devolver a identidade social aos nossos adeptos desaparecidos é um ato de justiça que cura o tecido social da instituição. Com isto demonstrámos que o Racing não esquece e que os laços comunitários são indestrutíveis". Este protocolo gerou um enorme impacto na Argentina e serviu de padrão normativo para que outros clubes da federação local adotassem medidas idênticas.
A arquitetura interna do departamento assenta também na prevenção e na aplicação de protocolos rigorosos contra a violência de género, garantindo ambientes seguros e equitativos para todas as mulheres e minorias que frequentam o clube, tanto nas bancadas como nos balneários e escritórios. No entanto, a visão da instituição projeta-se também para lá das fronteiras argentinas através de uma forte cooperação regional.
O Racing Club estabeleceu uma rede de intercâmbio de experiências com grandes clubes da América Latina, como o Corinthians e o São Paulo no Brasil, e os Pumas no México, com o objetivo de fortalecer políticas institucionais baseadas nos direitos humanos. Este esforço conjunto foca-se de forma muito incisiva no combate e na consciencialização do anti-racismo no futebol.
Através da partilha de estratégias desportivas e sociais com emblemas como o Corinthians — fortemente envolvido em campanhas globais contra a discriminação racial —, procura-se desarmar comportamentos intolerantes enraizados no ecossistema futebolístico sul-americano e global.
O sucesso deste modelo de gestão captou as atenções internacionais, levando o Racing a expor as suas metodologias em fóruns de prestígio global como a Sport Integrity Global Alliance (SIGA). As ações práticas desenvolvidas pela equipa que integra ainda Bárbara Blanco, Alberto Di Sanzo y Cory Sdrubolini, entre outros alinham-se diretamente com os exigentes critérios do SIGA Independent Rating and Verification System (SIRVS). O trabalho do Racing Club responde de forma cirúrgica aos pilares fundamentais das Normas Universais da SIGA: a Boa Governação, a Proteção e Desenvolvimento da Juventude e, muito particularmente, os novos critérios focados na Sustentabilidade Social e Direitos Humanos no Desporto.
Perante os líderes do desporto mundial, o clube tem demonstrado que a verdadeira integridade desportiva vai muito além da transparência financeira ou do combate ao doping; está intrinsecamente ligada à defesa ativa dos direitos humanos. O caso do Racing Club prova que o futebol moderno pode, e deve, ser uma ferramenta de inclusão, ética e memória coletiva.