O lado sério do espectáculo
1. No Dragão, com atenções desviadas pelo discurso áspero de um treinador que deixou o País em alvoroço, está em construção uma equipa refractária ao comodismo; que não se retrai perante a iminência de ser feliz, transforma o jogo numa aventura deslumbrante e desafia os apóstolos do cinismo que só conhecem a glória das vitórias a qualquer preço. Co Adriaanse lançou as sementes de um exército que valoriza o futebol, respeita o adepto e não entra em campo com intenções escondidas. O FC Porto está a consolidar o funcionamento de uma verdadeira máquina geradora de ideias associadas à bola, para quem o resultado é uma consequência natural da acção demolidora e não um objectivo a atingir por todos os meios, incluindo os mais perversos e ilícitos.
2. No afã de cumprir o guião estabelecido, o FC Porto também desarruma a casa e põe em risco os seus alicerces. Recorre então ao lado mais sério do espectáculo, personificado na figura maior de Lucho González. O argentino é um jogador indiferente às leis do mercado (fala pouco, não polemiza e por isso nunca é notícia) e à força da televisão (deixa para os outros o brilho das acções instantâneas, únicas abrangidas pelos resumos que os noticiários repetem sem parar). Limita-se a ser perfeito em tudo quanto faz, assente na interpretação notável do papel atribuído pelo treinador e na concepção do futebol como jogo colectivo. Naquela zona onde tudo se decide, acode a chamadas ininterruptas para resolver atrás e à frente; à esquerda e à direita; com e sem bola. Lucho é, ele próprio, um serviço permanente de apoio aos companheiros e uma bênção para a equipa.
3. As suas armas de eleição começam na inteligência táctica e prosseguem no posicionamento irrepreensível, na técnica sem sumptuosidade, na eficácia defensiva e no talento que revela a atacar. Conhece todas as regras das zonas de risco e segurança; distingue os lugares de recreio e senso comum; onde é obrigado a estimular a picardia e onde pode expressar os dotes artísticos moderados pela austeridade que impõe a si mesmo. Lucho tem um raio de acção fantástico e nunca se engana na aplicação dos argumentos em cada parcela de terreno: acrescenta músculo aos duelos individuais (sabe colocar o corpo e é fortíssimo no jogo aéreo); tem velocidade e visão para dominar as faixas laterais (o passe ou o cruzamento têm precisão indiscutível); guarda a bola como se fosse um tesouro mas também joga a um/dois toques; sai bem da pressão e é um perigo na aproximação à baliza – possui drible seguro e um tiro poderoso com o pé direito cuja lei, em boa verdade, ainda não impôs.
4. Lucho González é o ponto de equilíbrio indispensável e a máxima referência de quem purifica o futebol com uma atitude temerária e dá à beleza a virtude ganhadora que os pragmáticos recusam por ignorância. É na extraordinária qualidade do argentino que reside a maior probabilidade de êxito deste FC Porto que resgata da nostalgia a memória de outras equipas que nasceram, cresceram e tornaram-se eternas pelo respeito ao futebol como fenómeno desportivo e social. Mesmo sem saber o que o futuro reserva à expedição contra a mediocridade, eu, se fosse simples adepto do jogo e pudesse escolher livremente o palco para confirmar que o futebol também pode ser um espectáculo assombroso, transformaria o Dragão em destino obrigatório.
Melhor exibição europeia da década
O Benfica assinou em Old Trafford a melhor prestação europeia da última década. No “teatro dos sonhos”, perante adversário poderoso (mesmo desfalcado, o Manchester United é uma potência), os encarnados discutiram o jogo enquanto tiveram forças (75’), mostrando estrutura, coragem e talento.
Como as goleadas frente a Anderlecht, Estugarda e CSKA Moscovo ainda estão presentes; porque a equipa é sensivelmente a mesma e a qualidade não se adquire no supermercado, o mérito do salto pertence a Ronald Koeman, que resistiu aos solavancos e restituiu a esperança.
O salto de Nélson Veiga
O mundo parou no canto que decidiu o Naval-Rio Ave; Nélson Veiga desrespeitou a ordem superior e apontou fabuloso golo de cabeça. Se captássemos a imagem do momento mais alto que atingiu, a dúvida era legítima: elevou-se do chão ou caiu do céu? Prémio justo para um jogador a quem tem faltado sorte, carinho e orientação técnica para atingir nível mais elevado.
A mensagem de Manuel Fernandes
Manuel Fernandes assinou fabulosa exibição em Manchester. Empolgado pelo majestoso cenário do “teatro dos sonhos”, pelo orgulho de ser futebolista e pela responsabilidade de vestir a camisola do Benfica, confirmou perante a Europa que é merecedor de todas as atenções e recuperou junto da família encarnada o crédito que estava a perder. Para preservar o silêncio característico foi como se tivesse jogado com um cartaz: “Estou vivo! Acreditem em mim!” Mensagem recebida.
Ele que se decida
Quando saiu com o V. Setúbal, Liedson emitiu mensagem pública notória. O andar indolente, a cabeça em baixo e a expressão carregada simbolizavam a tristeza pela saída prematura; o que balbuciou para o banco tanto podia ser um insulto como uma declaração de amor – ele, o treinador e a SAD que se entendam, essas coisas não nos dizem respeito.
O problema não é um jogador sair revoltado porque quer ficar em campo; mau é passar 80’ lá dentro a dar sinais de que preferia estar cá fora.
