O mal-amado venceu a luta
1. Tem um rosto inexpressivo e ausente, imune à felicidade e ao desânimo, às vitórias e às derrotas, à euforia e à depressão; esconde as emoções e nem a voz dá a conhecer – fala pouco e baixo, primeiro sinal do relacionamento difícil com luzes, câmaras e microfones. Quim era um bloco de gelo sendo ídolo em Braga e assim permaneceu no banco da Luz. Quando Trapattoni o chamou, depois da derrota com o Belenenses, ao cabo de dois meses e meio (da 5ª à 14ª jornadas) em que Moreira sofreu catorze golos, cumpriu na íntegra o papel estabilizador numa equipa fragilizada e sem futuro; descoordenada e à mercê de agressões alheias; exposta ao erro e sem talento para tomar iniciativa. Até ao fim da época (cinco meses) sofreu apenas catorze golos e foi decisivo, prova de que tinha o perfil ideal para defender o cofre do novo campeão.
2. Os guarda-redes não podem ser estátuas à espera da sentença de um golpe, nem aventureiros que antecipam problemas; não devem ser tristes e apagados, porque transmitem sentimentos depressivos, mas também não podem ser esquizofrénicos que espalham ansiedade pela equipa e desespero pelas bancadas. Dino Zoff, campeão do Mundo em 1982 aos 40 anos, costuma dizer que "o guarda-redes dá personalidade à equipa". Quim dá imagem de serenidade, segurança, competência e saber. Precisou apenas de convencer os companheiros de que podiam confiar nele e deixar que o tempo cumprisse o seu papel na relação com os adeptos. Estava lançada a base de sustentação perfeita para uma equipa em dificuldades mas bem escudada no pragmatismo que a conduziria à glória.
3. Quim não deixou o 1º de Maio com as medalhas de Ricardo, que antes de sair do Bessa foi campeão pelo Boavista, proeza só comparável ao dia em que Michael Schumacher vencer um Grande Prémio de F1 ao volante de um Punto. Mas trocou uma equipa com horizontes modestos por um candidato ao título e impôs-se contra ventos e marés; saiu do lar onde era a maior figura da última década e venceu a luta pessoal contra a dúvida, a indiferença, o desprezo e até a falta de respeito. Como pode suceder em momentos importantes fora do Desporto, partiu em desvantagem e recuperou terreno pelo caminho. Não fora assim na selecção Sub-18 campeã da Europa em 1994 (ganhou, no início, o duelo com Avelino, agora no Penafiel), mas aconteceu no maior desafio da carreira.
4. Podemos agora recuperar a opinião generalizada segundo a qual o Benfica não tinha necessidade de contratar alternativa para uma baliza com dono; ou insistir que foi incompreensível trocar de guarda-redes a seguir ao desastre do Restelo, utilizando o mesmo raciocínio falacioso que leva dirigentes a despedir treinadores (responsabilizar um homem só pelos erros de um pelotão inteiro); ou reafirmar que Moreira tem melhores argumentos e está mais apto a marcar o futebol português no futuro. Mas porque perpetuar conscientemente a injustiça é uma doença moral e o verdadeiro cego é aquele que não quer ver, é preciso dizer que o campeão nacional 2004/05 deve muito à capacidade de resposta, ao estilo sóbrio e à superior qualidade de Quim. Está dito.
Simão de menos continua a ser de mais
Simão acaba a época a pedir descanso para restabelecer os índices físicos e técnicos (os dois estão mais ligados do que podemos imaginar), que fazem dele uma das grandes figuras da SuperLiga – creio mesmo que será a maior de todas. Os últimos jogos foram penosos para o capitão encarnado. Diminuído em relação a si próprio, continuou a ser o melhor no seu lugar específico. Um elogio ao esforço e talento de Simão que é, ao mesmo tempo, um alerta para a menor qualidade do campeonato.
Uma referência absoluta
Tinha solução para muitas dúvidas e resposta para questões pendentes. Permaneceu calado, observou e, sempre em silêncio, usou a palavra para dizer o que mais interessava: Portugal conquistou, quase sem dar por isso, uma referência para a próxima década. Manuel Fernandes foi o mais influente jogador do campeão, uma figura indiscutível da época e ainda reclamou as atenções da Europa. Melhor era impossível.
O homem que leva a bandeira
Numa batalha é preciso alguém que leve a bandeira, dê o tom, o exemplo e seja um permanente avivar da memória colectiva. Dizem-nos agora (e só agora) que o grito de unidade no dia a dia começava em Luisão. Acrescentemos, sem hesitar, que Petit foi a alma do exército, o máximo defensor de um espírito e quem melhor interpretou a grandeza do momento para a família benfiquista. Com soldados destes nada é impossível.
Trapattoni para a eternidade
Há treinadores que pegam numa equipa já formada, assumindo o risco de a fazer ganhar no imediato e os que têm como objectivo criar condições para só vencer mais tarde. Ao contratar Trapattoni, o Benfica olhou para o longo jejum e confiou na folha de serviços notável do mestre. A relação conduziu à maior festa popular vivida em Portugal nas últimas décadas, razão pela qual não é fácil quebrar uma ligação que a história já selou para a eternidade. Mesmo que Trap siga o instinto felino e faça o que tem de ser feito: despedir-se com a certeza do dever cumprido.
