O maquinista e o feiticeiro

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O maquinista e o feiticeiro
O maquinista e o feiticeiro

Com a realização da 10.ª jornada fica cumprido o primeiro terço da Liga: há uma equipa claramente melhor neste arranque de temporada? São, quantitativamente, tão ténues as diferenças entre FC Porto e Benfica que a questão coloca-se mais no plano qualitativo. E, nesse plano, o FC Porto exibe por ora níveis de coesão mais altos, o que resulta em grande parte da forma como os dois candidatos “saíram” do terramoto gerado, em agosto, pelas “ondas do mercado”, uma vez que se abateram algumas dúvidas sobre a capacidade de resposta de ambos os emblemas às saídas de Hulk, no FC Porto e de Javi García e Witsel, no Benfica.

É justo reconhecer-se mérito às duas “estruturas” e, fundamentalmente, aos treinadores Vítor Pereira e Jorge Jesus que, em situações conjunturais diferentes, souberam encontrar respostas para aquelas perdas (desportivas). Defendi sempre a ideia de que, no caso do FC Porto, Hulk não precisaria de um substituto direto. Seria a equipa, no seu todo, e não James, a compensar a saída do internacional brasileiro, um desequilibrador por natureza. É verdade que o jovem colombiano está a justificar tudo aquilo que prometeu na chegada ao Dragão, mas o que mais sobressai no FC Porto é, quase sempre, desde a saída de Hulk, o coletivo. Os mecanismos estão apurados. E quando Moutinho e Lucho, com a colaboração de um “trinco” solidário (Fernando ou Defour), impõem ritmo no meio-campo, o FC Porto transforma o seu bom futebol num futebol de excelência, como aconteceu neste último jogo com o Dínamo Zagreb.

O elogio ao FC Porto valoriza o trabalho que Jorge Jesus continua a realizar no Benfica. Porque o técnico dos encarnados teve de encontrar resposta, nos treinos e nos jogos, para vários problemas, uma vez que a “estrutura” não achou soluções a tempo, no defeso e na pré-época, para debelar a falta de alternativas a Maxi Pereira, Luisão e Garay; para arranjar um lateral-esquerdo de raiz, cujo cenário ficou bem mais cinzento quando o “capitão” teve aquela atitude irrefletida em Dusseldorf.

Com um treinador menos convicto das suas capacidades em transformar jogadores, o Benfica poderia ter entrado num processo de desagregação. Em pouco tempo, em plena competição (grande handicap), Jesus “carpinteirou” Melgarejo, encaixou Matic no lugar de Javi (talvez a tarefa mais óbvia), tirou Enzo Pérez das alas, impôs Jardel, fez aparecer André Gomes e começou a dar um pouco mais de estatuto a André Almeida e Ola John. Tudo isto num tempo de ocaso de Aimar e Carlos Martins.

O “feiticeiro” Jesus evitou, afinal, uma maior afirmação de Pereira e da “máquina-Porto”. É um grande mérito.

JARDIM DAS ESTRELAS

Numa semana em que um dos muitos futebolistas lusos a atuar no Cluj, Rui Pedro, consegue a proeza de um hat-trick frente ao Sp. Braga, volta a falar-se da qualidade do jogador português. Falta acreditar mais e desconstruir alguns mecanismos modernos de intermediação que tornam tudo demasiado fácil. Sempre acreditei que, com trabalho, o jogador português é tão competitivo quanto outros atletas, de outras nacionalidades. Se se exigir deles, a resposta surge com qualidade. Não são apenas as questões de mercado a impor as leis e esta ideia de deslocalização permanente. É também uma questão de crença e de vontade. Jogadores que se mostram competitivos na Roménia ou em Chipre também poderiam sê-lo em Portugal. Veja-se o caso de André Almeida. Jesus insistiu e ele... “aí está”.

O CACTO

Saiu de Alvalade como cabouqueiro do “quase Sporting”, quando se pensava que o clube leonino poderia aspirar a mais, antes de cair neste tempo de “talvez Sporting”. Saiu de Portugal e reequilibrou-se antes de se propor a um novo desafio no futebol português, num clube (com ambições) “em alta”. Começou bem, nos princípios, no discurso e nos métodos, mostrou na Turquia vistas largas e uma equipa dinâmica, mas nos últimos jogos começaram a somar-se os equívocos: em Alvalade, muito mal; na Roménia, muito mal também. E quando os comunicados saem...

TEMPO EXTRA

O “presidencialismo” de Godinho Lopes só poderia conhecer impulso importante se, nesta fase de impasse ou de “oásis utópico” em relação à “questão do investidor”, os resultados desportivos aparecessem. Na tentativa de dar alento ao “caos organizado” das últimas épocas, e depois de dois “treinadores sportinguistas” (Sá Pinto e Oceano) terem falhado a missão de camuflar o défice de estrutura, coesão e solidariedade institucional que mina o Sporting e está na base da instabilidade que acaba de contaminar todos os técnicos, Godinho Lopes aposta em Vercauteren para este recuperar o leão. Ao fim de quatro jogos, uma vitória (muito discutida), um empate e duas derrotas, a última das quais bastante traumática, na sequência de uma prestação vergonhosa, aparentemente sem remissão. E agora? Quem mais se pode responsabilizar? A paragem parecia ter sido benéfica, mas... É altura de se apurar prós e contras de eleições antecipadas.

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