O melhor em campo
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Não marcou o golo da vitória. Não é dele o passe decisivo que resolve um jogo. Mas fez muito mais do que isso. Protagonizou um momento que está acima de qualquer resultado final. Qualquer classificação. Qualquer objetivo desportivo. Conseguiu a melhor vitória de todas. Impediu que a morte voltasse a entrar num estádio de futebol. Chama-se Jaba Kankava. Não sabia quem ele era até ao último domingo. Nunca tinha ouvido falar nele. Mas tornou-se num dos meus heróis.
Omédio georgiano do Dnipro salvou a vida do adversário Oleg Gusev durante o jogo frente ao Dínamo Kiev a contar para o campeonato ucraniano. O pesadelo transformado em alívio ocorreu aos 20 minutos da primeira parte, naquilo que parecia mais um lance normal. Boyko, guarda-redes do Dnipro, saltou a uma bola e chocou violentamente contra Gusev, sem qualquer intenção de magoá-lo. Mas Gusev caiu inanimado, começou a enrolar a língua e parecia que ia morrer ali mesmo, no relvado, à frente do mundo inteiro. Todos os jogadores entraram em pânico. Todos, menos um...
Kankava percebeu o que se passava e teve a rapidez de pensamento para colocar a mão dentro da boca do capitão do Dínamo Kiev e impedir que ele sufocasse. Foram minutos horríveis. Miguel Veloso estava em campo e deve ter sentido um grande alívio quando viu o seu companheiro de equipa reagir e mexer a cabeça.
Olateral-direito da seleção ucraniana teve alta no dia seguinte. Ficou com algumas mazelas na cara, mas sem qualquer problema grave. Está a recuperar. E daqui por poucas semanas já devemos vê-lo a representar o seu país no Mundial do Brasil. A história podia ter sido bem diferente se um homem como Kankava não estivesse em campo para impedir o pior. Uma versão confirmada pelo próprio diretor do hospital que recebeu Gusev. “Ele salvou a vida do outro jogador. Agiu como um competente paramédico.” Se eu fosse o Gusev, estaria eternamente grato ao Kankava para o resto da minha vida. Da vida que continuava a ter por causa dele. Um momento único. Não me recordo de ter visto um jogador salvar a vida a outro num campo de futebol.
Ao longo da minha carreira, felizmente, nunca passei por uma situação semelhante. Vi vários colegas lesionarem-se com gravidade, mas nada que fosse além do futebol. Sempre que a situação é mais complicada, conseguimos perceber imediatamente pela reação dos jogadores que estão à volta. As imagens da Ucrânia fizeram-me recordar muitas situações com finais menos felizes. E outras em que o medo invadiu o estádio, mas não passou de um susto.
Um desses casos aconteceu em 2007, na final da Taça da Liga Inglesa entre o Chelsea e o Arsenal. O Terry também começou a enrolar a língua depois de sofrer um pontapé na cara do Diaby em mais um lance involuntário. Os paramédicos do Chelsea salvaram-lhe a vida no relvado. Mas foram alguns minutos de tensão e medo.
Drogba era companheiro de Terry na altura. Estava traumatizado com uma situação que viveu dois anos antes na sua seleção (durante um treino da Costa do Marfim, o seu treinador adjunto morreu de ataque cardíaco). Naqueles instantes pensou que podia assistir a outro drama, como lembrou no final do jogo, quando já sabia que Terry estava fora de perigo. “É difícil quando vês este tipo de coisas. Estive 10 minutos em que não conseguia concentrar-me no jogo e tinha as pernas a tremer.” Mas depois marcou o golo da vitória e dedicou-o ao seu capitão.
Dois anos antes, também no Chelsea, Petr Cech passou por uma situação semelhante num jogo frente ao Reading. Foi um episódio horrível. A partir daí, o guarda-redes checo passou sempre a jogar com uma proteção da cabeça. Em 2012, Pepe chocou com Casillas num jogo do Real Madrid frente ao Valencia. Ficou sem memória: “Chamo-me Pablo, o que estou a fazer aqui?”, terá dito quando foi questionado pelos médicos merengues. Os companheiros começaram logo a chorar ao ouvir aquela resposta. Mas o Pepe recuperou bem e voltou ao ativo passado pouco tempo.
O futebol é um jogo de contacto e nenhum jogador está livre de se poder magoar com gravidade e correr perigo de vida. Como aconteceu com Gusev, na Ucrânia, e com todos estes craques. Nestes momentos, não há rivalidades. Não há adversários. Apenas vidas humanas que precisam de ser salvas. Apenas um homem que precisa de ajuda. E também há heróis. Como os paramédicos dos clubes. E como os paramédicos improvisados. Como Kankava. O melhor em campo neste grande jogo da vida.
GRANDE CALDEIRADA
Barcelona sem contratar
A FIFA decidiu e a “bomba” explodiu na Catalunha. O Barcelona está impedido de contratar jogadores durante um ano, devido a supostas irregularidades na aquisição de menores de idade. Ou seja: os culé não podem ir ao mercado no verão de 2014 e no inverno de 2015. O Barça disse que não fez nada de mal e vai recorrer. Mais: estranha a presença de um dirigente do Real Madrid no comité disciplinar da FIFA, organismo do qual saiu esta decisão. Mas se o castigo for mesmo para a frente, pode hipotecar toda a próxima época dos catalães. Para ver nos próximos episódios.
NÓS LÁ FORA
Cristiano imparável
No jogo da Champions frente ao Borussia de Dortmund, o nosso menino estava lesionado, com dores no joelho direito, mas não parou de tentar. Não descansou enquanto não ajudou a sua equipa a resolver a eliminatória. E marcou o 3-0 na segunda parte com um pormenor só ao alcance dos melhores do Mundo. Com esse golo também passou a somar 14 na Champions esta temporada, igualando o recorde de tentos apontados numa única época desta competição, ao lado de Altafini (1962/63) e Messi (2011/12). Para ele, não há recordes impossíveis de alcançar e ultrapassar. É imparável!
DO MEU ÁLBUM
Os heróis do Atlético
Era impossível não recordar o meu Atlético Madrid numa semana em que os rapazes do grande Cholo Simeone voltaram a mostrar todo o seu valor. Foram verdadeiros heróis em Camp Nou, no jogo da Champions frente ao Barcelona. Tal como têm sido muitas vezes ao longo desta época. Correm e lutam sem parar. Estes são os valores do Atlético Madrid que eu também senti e representei enquanto jogador. Estavam desaparecidos há algum tempo, mas foram descobertos por Simeone e por estes jogadores fantásticos. E continuamos a sonhar com a vitória na liga e na Champions. Força, Atleti!
