O milagre do trabalho

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O milagre do trabalho
O milagre do trabalho

“Português, a culpa é tua. Devia matar-te. Perdemos por causa de ti.” Este era o discurso habitual de Jesús Gil y Gil quando o Atlético Madrid perdia e eu não jogava por estar lesionado ou castigado. Isso mesmo. Nos seus ataques de fúria, eu tinha culpa até por estar lesionado. Os jogos acabavam, nós perdíamos, e ele ligava para a minha casa. Na maior parte das vezes nem atendia. Deixava-o a falar sozinho para o atendedor de chamadas. E lá voltava ele sempre com o mesmo tom: “Te voy a matar.”

Gil y Gil não tem comparação com nenhum outro dirigente na história do futebol mundial. Foi único. Para o bem e para o mal. O presidente mais polémico de sempre. Mas a sua raiva, nesses momentos, tinha um motivo: o nosso plantel era curto em relação ao Real Madrid e ao Barcelona. Conseguíamos fazer grandes jogos contra essas equipas – e ganhei vários –, mas bastava faltar um jogador importante para ficarmos fragilizados. Fosse contra merengues e culés ou frente a outros conjuntos da competitiva liga espanhola. Mas, em muitas épocas, lutámos pelo campeonato até às últimas jornadas. Com muito menos meios.

Hoje, curiosamente, a situação é muito parecida. Tanto para o Atlético como para o Sporting. As duas equipas estão a fazer um milagre. Continuam a lutar pelo campeonato em fevereiro, contra rivais que têm mais soluções e mais dinheiro. Em agosto, ninguém se atreveria a dizer que Atlético e Sporting chegavam a esta altura a lutar pelo título. Mas estão a fazê-lo. E, apesar dos recentes desaires, continua tudo em aberto nas duas ligas ibéricas.

O Atlético perdeu Falcão para o Monaco na pré-época. O melhor 9 do Mundo. A estrela da equipa. O herói da conquista da Liga Europa e de tantos outros jogos importantes. A última temporada acabou com um dos momentos mais felizes na história colchonera: a vitória frente ao Real Madrid na Taça do Rei. Mas com a saída de Falcão todos pensámos ter uma quebra nesta época. Cholo Simeone foi, uma vez mais, enorme. Soube encontrar soluções dentro de casa, com grande criatividade, e apresentou uma equipa ainda mais competitiva e confiante. Diego Costa assumiu o papel deixado vago por El Tigre. E as vitórias têm acontecido em todas as frentes.

O Sporting, por seu lado, começou de novo. Nova direção, novo treinador, novos jogadores, com muita gente da formação. Este seria o seu ano zero. Os primeiros passos de um recém-nascido depois da grande crise dos últimos anos e do pesadelo que foi a época passada. E, para espanto de todos, está a lutar pelo título contra Benfica e Porto.

As últimas duas semanas foram menos boas para leões e colchoneros. O Sporting empatou em casa com a Académica e perdeu na Luz. O Atlético foi eliminado nas meias-finais da Taça, pelo Real, e perdeu em Almería para o campeonato.

Mas não é coincidência. O Sporting foi à Luz sem William Carvalho e Jefferson. Dois titulares indiscutíveis e peças fundamentais na grande época que a equipa tem feito. Sem eles, a equipa fica mais débil. O Atlético não teve David Villa em Almería, nem Diego Costa na segunda mão da Taça. Também são duas peças fundamentais e impossíveis de substituir no plantel atual. Mas as duas equipas ainda estão vivas.

Real e Barça lutam por todos os títulos? Natural! Benfica e Porto lutam pelo campeonato? Esperado! Atlético e Sporting aparecem nesta discussão? Uma surpresa! E um milagre que vem do grande trabalho dos dois clubes. Estão a fazer mais com menos. E a conseguir assustar os rivais. Podem ter perdido as batalhas recentes, mas a guerra continua em aberto. E ainda bem! O futebol dos dois países precisa que Sporting e Atlético estejam fortes.

GRANDE CALDEIRADA

8 autogolos em 6 minutos

Aconteceu em Itália, na Taça da Sicília, no jogo entre Borgata Terrenove e Bagheria. O resultado terminou em 14-3 para a equipa da casa, que ganhou com oito autogolos marcados nos últimos seis minutos de jogo. O Borgata precisava da diferença de golos e conseguiu, porque o adversário começou a pôr bolas na própria baliza quando ainda perdia por 6-3. São duas equipas desconhecidas, mas os resultados combinados, infelizmente, não são apenas um drama dos escalões secundários. Acontecem nas mais variadas divisões do Mundo, mas principalmente em Itália. E são o maior escândalo do futebol. Uma vergonha que é preciso eliminar.

NÓS LÁ FORA

Herói na Premier

Fez algumas feridas graves na perna. Mas continuou em campo. Aguentou. E marcou o golo da vitória do Southampton frente ao Hull City em jogo da Premier League. O central José Fonte teve uma noite de autêntico herói. E já é um jogador muito experiente. Passou pela formação do Sporting e chegou a ser contratado pelo Benfica. Representou várias equipas em Portugal, por empréstimo, e chegou a Inglaterra para jogar no Crystal Palace. Mais tarde mudou-se para o Southampton, onde está a cumprir a sua quinta época. Aos 30 anos, é o capitão e grande símbolo de uma equipa que está a fazer uma campanha fantástica na liga inglesa (oitavo lugar). Mais um exemplo do talento que temos por cá (e que, infelizmente, os nossos clubes nem sempre sabem aproveitar).

DO MEU ÁLBUM

A hora da verdade

A partir desta fase, já não há mais margem de erro. Há cada vez menos tempo para emendar maus resultados. Em toda a minha carreira, sempre senti esta parte da época como a mais decisiva. É aqui que a pressão começa a aumentar. E é também aqui que se começam a separar os vencedores – e as equipas com estofo de campeãs – de todas as outras. Nos campeonatos, nas taças de cada país, na Champions e na Liga Europa. Agora é a doer. Chegou a hora da verdade.

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