Opinião

Miguel Salema Garção Gestor e antigo dirigente do Sporting

O momento de acreditar

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O futebol tem uma característica que o torna fascinante: obriga-nos a recomeçar quando ainda estamos a saborear as vitórias. É exatamente esse o momento que o Sporting vive, apesar da última época no futebol não ter tido o êxito desejado.

Depois de épocas de enorme sucesso, com títulos conquistados, jogadores valorizados e um reconhecimento crescente dentro e fora de Portugal, o clube e a sua sociedade desportiva enfrenta uma nova mudança de ciclo. Alguns dos melhores jogadores saíram, outros chegaram, e é natural que exista ansiedade. Mas é precisamente nestes momentos que se distinguem os grandes clubes das equipas que vivem apenas de ciclos passageiros.

A renovação do plantel não é um sinal de fraqueza. É a consequência de um projeto que cria valor, desenvolve talento e consegue transformar sucesso desportivo em sustentabilidade financeira. O verdadeiro desafio nunca foi vender. O verdadeiro desafio é continuar a ganhar depois de vender ativos.

Esse é hoje o trabalho da estrutura do futebol.

Há um nome de que pouco se fala, talvez porque nunca tenha procurado protagonismo: Bernardo Palmeiro. Tem um perfil raro no futebol atual. Trabalha mais do que aparece, decide mais do que fala e lidera com discrição, competência e sentido de responsabilidade. É agora um dos rostos de um desafio exigente: garantir que o Sporting mantém o nível competitivo que conquistou nas últimas épocas.

Não será um caminho sem obstáculos. Nenhuma equipa se transforma de um dia para o outro. Novos jogadores precisam de tempo, rotinas e confiança. E é aqui que entram os sócios e adeptos.

Agora não é tempo de impaciência. É tempo de apoio.

A equipa técnica, o plantel e toda a estrutura precisam de sentir que Alvalade continua a ser uma força e não um tribunal à primeira dificuldade. Quem já viveu o futebol por dentro sabe que os projetos vencedores também se constroem nos momentos em que os resultados ainda não aparecem com a regularidade desejada.

Falo com algum conhecimento de causa. Tive o privilégio de integrar, por duas vezes, a estrutura do futebol do Sporting, participando na estrutura que devolveram ao clube ao título em 1999/2000 e que voltaram a ser campeãs em 2001/2002. Aprendi então uma lição que nunca esqueci: os campeonatos ganham-se muito antes de começarem. Ganham-se na estratégia, no planeamento, na escolha das pessoas e na capacidade de manter todos focados no mesmo objetivo.

É por isso que continuo a olhar para o Sporting também numa perspetiva de gestão.

Hoje, o sucesso desportivo é muito mais do que conquistar troféus. É garantir presença regular na Liga dos Campeões, reforçar a notoriedade internacional da marca Sporting, aumentar receitas, atrair investimento e criar condições para continuar a formar, contratar e competir ao mais alto nível. O equilíbrio financeiro e a ambição desportiva deixaram de ser objetivos incompatíveis. Pelo contrário: alimentam-se mutuamente.

O Sporting conseguiu construir esse caminho. Agora é tempo de o consolidar.

Como sportinguista, quero ganhar sempre.

Como alguém que conhece a exigência da gestão desportiva, sei que os ciclos mudam, que os plantéis evoluem e que as decisões mais importantes nem sempre são as mais populares no momento em que são tomadas.

Mas sei também outra coisa.

Quando a competência existe, quando há estratégia e quando sócios, adeptos, equipa técnica e jogadores caminham na mesma direção, o Sporting fica sempre mais perto de vencer.

Este é o momento de acreditar. Porque as caras podem mudar. A ambição do Sporting, essa, nunca muda.

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