O novo projeto de Jesus
1 A qualidade individual é e será sempre a base do futebol mesmo sabendo que, em desportos coletivos, nada se consegue sem a coordenação de todos os elementos em causa. Muitas vezes, o jogador é como um trapezista sem rede, razão pela qual é tão relevante o papel do treinador: pela transmissão de uma ideia, pela definição de um plano, pelo modo como estabelece cumplicidades generalizadas e compromete cada um com o bem comunitário que é a felicidade de todos. O que um futebolista pede a quem o comanda são respostas e sentido de orientação. Os mestres que correspondem a esse perfil pedagógico não precisam de tiques autoritários porque se impõem conquistando o respeito e a admiração pela única via possível: a do saber com que harmonizam as diferenças e as tornam solúveis na produção coletiva.
2 Parte da obra de Jorge Jesus no Benfica tem sido construída a recolher, analisar e interpretar sinais de jogadores que consegue potenciar. Foi com o enquadramento perfeito do talento que, no passado, deu abrangência às ondas criativas constantes de fenómenos que se expressavam avulso, quando se cruzavam com a bola, com os adversários ou com a baliza. Pizzi é o novo alvo do treinador encarnado, que precisa agora de apetrechá-lo com conceitos mais amplos; orientar o talento definido pela eficácia individual num sentido de natureza universal, que funcione como denominador comum da equipa. Mais do que convencer o treinador de que pode ser um médio-centro de nível mundial, Pizzi tem de acreditar no êxito da metamorfose. E fazer com que companheiros, adeptos e jornalistas acreditem nele.
3 Não é por acaso que a esmagadora maioria das adaptações bem-sucedidas acontecem da frente para trás. O treinador não tem poderes sobrenaturais para transformar funcionários obedientes e limitados na relação com a bola em futebolistas de topo – e os eleitos pela natureza são muito mais do que homens disciplinados, obedientes e solidários. Para lá dos desequilíbrios por ações individuais, Pizzi tem agora de mostrar que conhece o jogo no que ele tem de mais profundo e que domina a sua complexidade. O primeiro balanço do processo é animador: sempre que foi chamado (jogos frente ao Bayer Leverkusen e ao Arouca são bons exemplos) trouxe equilíbrio, inteligência e soluções táticas ao eixo central, onde é suposto impor-se como trave de segurança atrás e uma luz intensa que ilumina e clarifica à frente.
4 Aos 25 anos, Pizzi tem pela frente o desafio que pode dimensionar o seu futuro e apetrechar o futebol português com um jogador diferente. O processo é longo e difícil por ser raro coincidirem no mesmo homem o espírito de bombeiro que acode a todos os incêndios; a visão do sábio que antecipa todas as intenções alheias; a inteligência do arquiteto que desenha o bairro e a firmeza do polícia que faz cumprir as leis que orientam a comunidade. Para lá do que o futebol tem de póquer (aventura e risco), vai ter de dominar também as partes referentes a xadrez (raciocínio e visão) e caça (contundência nas decisões que envolvem os outros). Pizzi ainda não esclareceu totalmente se vai ser o novo Enzo Pérez. Mas continua a dar sinais promissores de que a proposta de Jorge Jesus tem pernas para andar.
Bernardo Silva sempre a crescer
Há um jovem português de 20 anos que está a jogar cada vez mais e melhor na liga francesa
Bernardo Silva começou por ser apenas um elemento do plantel do Monaco; Leonardo Jardim concedeu-lhe presenças no banco e, mais tarde, tornou-o uma das primeiras apostas como suplente utilizado; ascendeu depois a titular esporádico e evoluiu para dono de um lugar no onze. O ponto da situação não engana: já é titular indiscutível, não em zonas periféricas mas como número 10, e faz golos que dão vitórias à equipa. Isto é, já não falta tudo para cumprir o destino como fenómeno absoluto do futebol atual.
Gauld pode ser um caso sério
Os exageros não ajudam a consolidar competências em futebolistas à procura de afirmação
Gauld chegou como sendo o Mini Messi e isso descredibilizou-o à partida. Desde então, o escocês tem cumprido a sua parte, atuando sem relevo na equipa B, como etapa do processo de aprendizagem. Frente ao Rio Ave, jogou 25 minutos, não fez nem deu golos a marcar, não fez levantar a plateia; mas foi inequívoco quanto a um talento requintado, expresso pela via do engano e da sumptuosidade de um pé esquerdo milagroso. Falta-lhe ainda intensidade, ritmo, confiança e espírito para estas andanças mas tem o dom dos fenómenos. Deixou água na boca aos adeptos. Pode ser um caso sério.
A Liga não tem outro Hernâni
O sensacional V. Guimarães de Rui Vitória está a dar grandes jogadores ao futebol português
A Liga não tem outro Hernâni. O reportório do extremo vimaranense é ilimitado: é um mágico deslumbrante, a quem a velocidade não tolda a visão nem rouba precisão aos gestos; é um jogador sempre vertiginoso, que parece gastar depressa toda a energia mas que, no fim de cada jogo, revela frescura suficiente para mais hora e meia de sucessivas correrias, quedas, dribles, passes, remates… E ainda é o malandro associado ao engano, que mente com o corpo todo e só fala verdade no último instante –quando chega a altura do passe ou do último toque para o golo.
