O papel de Jonas no Benfica
1 - Quando escreveu que algumas das insuficiências como jogador se deveram aos centímetros que lhe sobram (188 para ser preciso), Jorge Valdano não sabia que, mais de vinte anos depois, a regra para escolher futebolistas contempla a necessidade quase imperiosa de serem altos. O que foi uma dificuldade para o antigo jogador do Real Madrid e campeão do Mundo pela Argentina em 1986 é uma vantagem para os treinadores do novo século, apesar de, como em tudo na vida, haver exceções. Com 1,73 m, Jonas rema contra a corrente. O seu estilo eletrizante, que os estudiosos explicam como fenómeno reativo para compensar a aparente desvantagem pela baixa estatura, levam-no a desafiar as leis da mecânica. O espanto começa no modo como associa engenho, travagem e aceleração.
2 - Melhora cada bola que toca, justamente porque lhe dá a malícia que não trazia quando lhe chegou aos pés; as soluções que encontra são sempre contundentes, porque tudo o que pensa e executa faz aumentar o perigo no processo de aproximação à baliza. Por ser um avançado que nada resolve sozinho, desenvolve conceito de jogo combinado muito próximo da perfeição, no qual se posiciona com primor para receber as solicitações dos outros. Não sendo jogador de deslocamentos amplos, tem qualidades notáveis, desde logo a maioria das que definem os grandes goleadores. Na área, onde a tensão aumenta e o espaço diminui, a ele baixam as pulsações, efeito que lhe permite ser frio com os guarda-redes e preciso no instante de fazer o que o futebol tem de mais difícil e aclamado: o golo.
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3 - Num Benfica em que o brilho se tem concentrado em Talisca (Enzo, Salvio, Gaitán e Lima abaixo do normal), Jonas é candidato a protagonista da reviravolta. Em equipa que transporta a gloriosa herança de um passado no qual a vitória, entendida com independência do modo como é conseguida, pode não chegar para ser feliz, é difícil promover a harmonia institucional cumprindo apenas os pressupostos de profissionalismo, disciplina, inteligência tática e pragmatismo. Com o Nacional, tal como frente a Rio Ave e Monaco, o Benfica seguiu apenas um guião minimalista para não cometer erros, orientação que contraria princípios assimilados e aceites ao longo de 110 anos de vida, que serviram para consolidar uma sensibilidade, depurar um estilo e aprimorar a tendência plástica definida no código genético.
4 - Jonas é, assim, raio de luz numa equipa que, a despeito da liderança do campeonato, continua a expressar futebol sombrio e pouco entusiasmante; é uma promessa de eficácia para lubrificar máquina enferrujada e que já nem consegue cumprir na íntegra as rotinas mais óbvias; é sinal de esperança num exército a precisar de injeções de confiança e talento para cumprir obrigações inadiáveis com a história e os adeptos. O brasileiro tem tudo para ser a referência de uma nova etapa no Benfica 2014/15 e impulsionar os companheiros a recuperar memória, compromisso e inspiração. À cadência a que os melhores goleadores da Liga estão a marcar, terá por certo uma palavra a dizer na luta pelo topo da lista. Mesmo tendo começado mais tarde do que todos eles.
Primo distante do outro Adrián
Quando a contratação é maciça, há sempre quem não atinja o coração dos adeptos
Adrián López não é um qualquer, a começar pelo preço. Mas é muito mais do que os 11 milhões que o FC Porto pagou ao Atlético Madrid por 60% do passe e que vêm sempre à baila. Ele é o jogador que, na final da Champions, na Luz, rendeu Diego Costa aos 9 minutos, pelo que só não foi campeão europeu porque Sérgio Ramos marcou aos 90’+3. Aconselha o bom senso a ter paciência com protagonista tão ilustre e jogador com tantos recursos. Mesmo que, até se mostrar, pareça ser apenas primo distante do outro que foi figura da Liga espanhola.
O bom exemplo do miúdo Tozé
Nunca haverá legislação perfeita em casos de jogadores com ligação contratual ao adversário
Tozé foi deslumbrante pelo Estoril no jogo com o FC Porto, clubes que repartem a propriedade do seu passe. Ponderados todos os fatores, exerceu influência marcante no jogo. Foi frenético a chegar à bola para ser tocado por Fabiano e sereno como um monge tibetano a executar a grande penalidade. José Couceiro fê-lo correr riscos elevados – imaginem só que o miúdo falhava... No fim, os portistas apertaram com ele, tê-lo-ão levado às lágrimas e acusado de falta de profissionalismo. Esperemos que não estivessem a insinuar que profissional era falhar o penálti. De propósito.
Matt Jones tem valido pontos
Está a cumprir algumas das etapas mais significativas para atingir um nível de excelência
Aos 28 anos, Matt Jones caminha para a maioridade. Falta-lhe pouco para ser trintão, a tal portagem que os guardiões dos templos têm de pagar na longa estrada que os conduz ao pico do talento. O inglês que defende as costas do sensacional Belenenses de Lito Vidigal já cometeu erros que custaram golos. Mas, feito o balanço das dez jornadas que já lá vão, é preciso reconhecer que há muito dele na notável carreira da equipa. A exibição em Moreira de Cónegos serviu apenas para sustentar com um exemplo concreto a imagem que já vinha de trás: é um guarda-redes que vale pontos.
