O papel decisivo dos pormenores

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1 Quando teve necessidade de dizer em voz alta que não é ingénuo, estabelecendo prioridades entre resultado e princípios de jogo, entre a eficácia que explica as vitórias e a beleza que enche a alma, resvalou para a mediocridade que sempre combateu e da qual se afastou desde o primeiro dia. Construído o edifício do futebol leonino com base de sustentação científica e filosófica – aquela que melhor avalia os conhecimentos dos bons arquitectos –, José Peseiro tornou-se a imagem do saber discutido com leveza e o alvo fácil de críticas menores mas que, de tantas vezes repetidas, ameaçam tornar-se verdades absolutas. Para quem já fez o mais difícil na formação de uma equipa, tem sido arrasado com os argumentos primários da táctica, das substituições, do discurso e da gestão do plantel.

2 José Peseiro consumou, no primeiro ano como líder de uma grande equipa, o trabalho que o identifica como treinador habilitado a desempenhar funções ao mais alto nível. O Sporting tem um estilo, defende uma ideia e assenta em determinada forma de ser e sentir; preocupa-se em ter a bola e em cuidá-la; em assumir a iniciativa e partir com ordem ao assalto da baliza adversária; em dar geometria aos desenhos de ataque sem descurar a livre expressão individual dos seus futebolistas. Perante este certificado de autenticidade que identifica o clube no tempo e há muito corporiza o sentimento de que pratica o melhor futebol de Portugal, a contestação excessiva explica-se não por questões estruturais mas de pormenor. Tudo com origem exclusiva nos resultados menos bons.

3 Para Johan Cruijff, “o grau de felicidade dos adeptos não se mede pelo número de títulos conquistados, mas pelo caminho escolhido para os atingir” – os do FC Porto, ao fim de vinte anos de vitórias, podem ministrar um curso completo sobre o assunto. Jorge Valdano acrescenta que é impossível contrariar, num clube ou na Selecção, a sensibilidade da gente – o Benfica, mesmo em jejum desde 1994, tem as bancadas divididas entre a euforia da liderança isolada e a desconfiança em relação à proposta futebolística de Trapattoni. Vencido o primeiro embate da inadaptação mútua, da mensagem bloqueada e dos métodos não assimilados, José Peseiro foi um rosto de esperança que, aos poucos, se tornou demasiado sério. Até renunciar ao belo em nome das vitórias, exagero que o conduziu à dupla derrota de perder e jogar mal.

4 Numa sociedade predisposta a glorificar qualquer ganhador reincidente – sem querer saber se teve sorte ou beneficiou dos favores de terceiros; se respeitou o futebol, as regras, o adversário, os sentimentos das pessoas e os mais elementares princípios da ética desportiva –, o fracasso, seja ele o que for, é uma tragédia para a qual só existem respostas drásticas. Peseiro só conseguirá sobreviver à voragem da máquina se inverter a tendência e chegar ao fim da época pelo menos com uma medalha – a SuperLiga e a Taça UEFA estão em aberto. Neste mundo de aparências, onde muitos incompetentes têm como prémio o sucesso que ninguém consegue explicar, de pouco lhe valerá a convicção de ter trabalhado bem e acreditar no futuro que está a preparar. Não são justas, mas são as regras do jogo.

Flanco direito

Muitas culpas no cartório

Paulo Sérgio não marcou pelo Belenenses porque atirou ao poste, mas foi determinante na vitória azul; Nuno Santos defendeu tudo pelo Penafiel e Edgar Marcelino criou o primeiro golo do escândalo em Alvalade. Os emprestados pelo Sporting defrontam o clube de origem – o que é de saudar. Mas estão cheios de culpas no cartório nas recentes oscilações leoninas – cada um que pense o que lhe der mais jeito.

A emoção e a sensibilidade

O último esforço para evitar o golo do Inter despertou as todas as emoções de quem o sabia em dificuldades físicas; a perfeição do corte exuberante satisfez a sensibilidade de quem entende o futebol como escola de virtudes. O lance, que seria insignificante para o resultado da eliminatória, ficará registado na memória de quem o viu, enquanto Pedro Emanuel ganhou o direito a tornar-se inesquecível. Pois é, a História tem destes caprichos.

Um bom início de conversa

No meio do engarrafamento brutal em que está transformada a SuperLiga; na selva sem regras em que viajam os principais candidatos ao título, emerge a figura exuberante de Manuel Fernandes. O jovem médio encarnado é um modelo de inteligência, técnica, lucidez, regularidade, ponderação, responsabilidade e até sentido histórico a interpretar o momento. O Benfica vai à frente do campeonato e não se sabe porquê? Para já tem o melhor jogador da SuperLiga. O que é um bom início de conversa.

Os heróis de uma história épica

Diz Jorge Valdano: “O futebol é um jogo bonito que os medíocres querem tornar feio em nome do pragmatismo e é um jogo primitivo que os revolucionários querem violar mediante métodos científicos.” A sorte do Felgueiras foi ter um treinador (Diamantino Miranda) que se orientou pela essência mais pura do jogo e um grupo de futebolistas que soube responder à humilhação, à fome e à miséria com o orgulho de verdadeiros campeões. Aconteça o que acontecer até ao fim da época,

estão condenados a heróis de uma

história verdadeiramente épica.

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