O paraíso em forma de Jardim

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O paraíso em forma de Jardim
O paraíso em forma de Jardim

1 Se é verdade que o Sporting 2013/14 tem marcas das aparições fantasmagóricas dos seus jogadores mais explosivos, talentosos e eficazes (ninguém marca tantos golos em Portugal), também se caracteriza pela insistência da entrega à luta, pelo cumprimento das tarefas solidárias e pelo compromisso inabalável com a causa. Equipa que se deixa arrastar pelas emoções, é orientada por inteligência superior na ocupação do espaço, no tempo em que cada um dos seus componentes entra em cena e no acerto das decisões tomadas por todos eles. Há treinadores que lutam para mudar o rumo das coisas, Leonardo Jardim melhora o que lhe oferecem; uns chocam, frontalmente com a realidade, ele adapta-se a ela. Porque o talento se consolida na competência e se dimensiona mais facilmente no êxito, os futebolistas leoninos jogam cada vez melhor.

2 Desenvolvido um modelo, assimilados princípios e criada empatia global entre os elementos da equipa e os adeptos do clube; com soluções para cada dificuldade, talento para surpreender a qualquer momento e personalidade para gerir os resultados (por enquanto quase todos bons), o Sporting sustenta o sucesso dos primeiros meses da temporada com trunfos de regularidade que já não se compadecem com estados de graça transitórios. Numa atividade cuja obsessão dos últimos anos visa diminuir a imprevisibilidade, esses trunfos básicos e estruturais das equipas há muito deixaram de expressar-se por obra e graça do Espírito Santo. De resto, a esse nível do entendimento do fenómeno futebolístico já pouco ou nada acontece por acaso.

3 Leonardo Jardim formou uma cooperativa sem privilégios e riscou da cartilha conceitos como egoísmo, vaidade e todo o tipo de valores que sobreponham o individual ao coletivo. Os jogadores vivem no meio de um sonho, são queridos pelos adeptos e têm sabido aproveitar o clima de motivação geral para dar eficácia ao que fazem. De resto, o Sporting tem sido responsável pela enorme lição de dignificar o futebol como escola de vida, na qual o orgulho e as referências morais superam os tiques de novo-rico de quem nasceu pobre e se dimensionou no apelo constante a sentimentos e emoções – é esmagador o sentido de representação de quem empunha uma bandeira e sente no peito o símbolo à volta do qual se unem milhares e às vezes milhões de pessoas.

4 No Sporting todos se comprometem com as dificuldades e sabem interpretar o papel de um clube que, tradicionalmente oficial e cavalheiro, vive hoje como classe operária unida à volta de um projeto institucional e técnico, pronta a desafiar as potências dominantes. É este exército deslumbrante, caracterizado por exprimir os seus valores de forma quase comovedora, que vai ao Dragão submeter-se ao teste mais exigente da temporada. Uma equipa que, jogando pelos adeptos, pela história e por si própria, encontrou o lugar idílico onde todos se entendem e são felizes a partir de um cenário de dificuldades. Um milagre escolheu o Sporting para mostrar que o futebol também serve para construir paraísos onde se esperava o horror de infernos reeditados. E a superação é um bom ponto de partida para a glória.

Ivan Cavaleiro é causa coletiva

De repente, o país ficou a saber que o Benfica tinha uma pérola preciosa escondida no Seixal

Ivan Cavaleiro há anos que é familiar aos olheiros dos maiores clubes europeus. Pelo que tem feito nas Seleções jovens, na equipa B e agora no jogo da Taça em Cinfães, é um jogador tremendo, dono de soluções contundentes em todo o espaço de ataque – é rápido, forte e potente; serve para pintar quadros solitários e articular-se bem com o jogo combinado; porque é íntimo do golo, pode ser ala ou avançado-centro. Agora que evoluiu para causa coletiva na Luz, só precisa que a convicção de lançá-lo supere a dificuldade de fazê-lo numa equipa com extremos e avançados de nível mundial.

Varela entre o bem e o mal

Apreciar um jogador não pode estar dependente do momento (bom ou mau) que atravessa

Varela é daqueles que parecem condenados a viver na ténue fronteira entre o bem e o mal; o amor e o ódio; o reconhecimento do talento e a dúvida que chega a ser malcriada. Por mais que jogue, por mais brilhante e decisivo que seja, está sempre em causa, como se tivesse de responder eternamente à fúria inquisidora de um tribunal do Santo Ofício. Mesmo quando vem de meses a fio jogando como só ele e poucos mais sabem, há sempre quem tenha dúvidas quanto à sua capacidade. Não era preciso para mostrar o que vale mas o golo que marcou ao Trofense define-o como um craque.

Dois génios em confronto

Por mais que o playoff seja um Portugal-Suécia, a individualização do duelo é inevitável

O confronto suscita, desde logo, uma primeira conclusão penosa para o futebol: Ronaldo ou Ibrahimovic, um deles vai ficar pelo caminho e subtrair ao Mundial brasileiro um dos melhores jogadores do Mundo. O sueco já perdeu a festa de há quatro anos, na África do Sul – CR7 não falhou, até ao momento, qualquer grande competição – mas nem por isso se habituou às ausências da grande montra. Um Campeonato do Mundo sem Zlatan é um horror para o futebol. Mas sem Cristiano será uma verdadeira tragédia. O confronto prevê-se equilibrado: esperemos que os deuses tomem partido por Portugal.

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