O percurso imaculado de Jardim

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O percurso imaculado de Jardim
O percurso imaculado de Jardim

1 A questão é recorrente: quanto demora um treinador a construir uma equipa? Hoje, os argumentos permitem respostas diversificadas e já nem todas incidem na imperiosa necessidade de meses para obter a articulação plena de todas as partes envolvidas na edificação de um coletivo. César Luis Menotti transporta a resposta para “o tempo de que o médico precisa para diagnosticar a doença a um paciente”, confirmando que a resolução de problema tão complexo não se reduz ao estalar de dedos, embora seja mais simples do que muitos treinadores foram reclamando pela vida fora. Deste modo, o êxito passa, em grande parte, pelo talento do médico em antecipar a doença mas também pela atitude do doente – isto para já não falar das enfermidades sem cura.

2 As equipas de Leonardo Jardim identificam-se facilmente porque não têm dúvidas. Ao contrário de outras, que alteram os pressupostos na iminência do fracasso, com ele não há desvios: se é para atacar, ninguém recua; se a ideia é jogar de pé para pé, está proibido o chuto para a frente; se a imagem é de pausa e paciência, fecham-se as portas a vertigem e desespero. Disse o colombiano Pacho Maturana que “é preciso morrer sem nos atraiçoarmos”, alertando aqueles que se deixam vencer pelo medo da derrota. Jardim nunca se desviou do caminho e cumpriu sempre os objetivos – aliás, superou-os quase sempre. Na dúvida, aceitou pôr à prova o acerto do instinto, a força das convicções e a solidez da personalidade. Seguir o senso comum é sempre uma boa opção. Jorge Valdano dá a receita: devolver o futebol aos jogadores e dar a bola aos melhores.

3 Desde que chegou ao futebol profissional, Leonardo Jardim impôs-se com um rasto de competência e a construção de exércitos definidos a partir de quem sugere um projeto, defende uma ideia e obtém, automaticamente, a cumplicidade generalizada de quem o integra – todos os casos implicaram união na defesa do bem imenso que é a felicidade comum. Desse processo, tantas vezes repetido com êxito, resulta a imagem de um líder em quem todos acreditam; de um homem com convicções fortes, difícil de demover das decisões que toma, e de um treinador que sabe transmitir os conhecimentos e passar a mensagem. É um pedagogo, um professor, um mestre que afugenta angústias pré-fabricadas e atribui ao futebol a condição de jogo. Prova de que tem o condão de melhorar tudo aquilo em que toca, é suficientemente persuasivo sobre os soldados à disposição: todos aceitam o rumo indicado pelo general.

4 O percurso desde que abandonou a Madeira natal é imaculado: subiu o Desp. Chaves à Liga de Honra e o Beira-Mar à Liga principal; no Sp. Braga chegou à 24.ª jornada à frente do campeonato e foi campeão grego pelo Olympiakos, deixando a obra a meio, com 10 pontos de vantagem sobre a concorrência; pegou num Sporting em desinvestimento e foi segundo (um ano depois de ter sido sétimo); assumiu o AS Monaco desfalcado de Falcão e James e tem pé e meio nos quartos-de-final da Champions. Já é uma das grandes figuras do desporto português. Mas se tiver, no futuro, oportunidades condizentes com a obra efetuada até ao momento, aquelas que tem justificado para enriquecer o currículo com os títulos que já lhe faltam, poderá mesmo atingir expressão universal que o coloque entre os melhores treinadores da história do futebol português.

Jonas tem classe acima da média

Há futebolistas que não podem suscitar quaisquer dúvidas: os muito bons e os muito maus

Jonas é um dos melhores avançados do Brasil e, aos 30 anos, candidato à seleção. Basta acompanhá-lo 10 minutos para concluirmos, pelo pisar, pelo toque, pela movimentação, que tem classe acima da média. Bola que sai dos seus pés leva a malícia que não trazia quando chegou; pode vir com efeito, desenquadrada, difícil de dominar, que ele hipnotiza-a com qualquer parte do corpo, não sendo de excluir que a encaminhe para a baliza. É um jogador precioso. Claramente um dos melhores da Liga.

Herrera foi dono e senhor do jogo

No clássico, o FC Porto foi superior em todos os capítulos. Uns mais visíveis do que outros

Herrera não é daqueles jogadores que enamoram as câmaras, porque boa parte do que faz bem e influencia o jogo não se reflete naquilo que as imagens televisivas eternizam com sucessivas repetições – o golo, a assistência, o adorno. Dificilmente o mexicano podia ser protagonista quando Tello fez três golos e Jackson deu lição de como o ponta-de-lança pode brilhar e ser decisivo sem assinar o ponto. Mas foi dono e senhor na zona onde tudo se decide, por presença constante e acerto milimétrico em todas as decisões que tomou, nos gestos que fez e nos movimentos que ensaiou.

A especialidade de Rui Patrício

Ficou provado, desde muito cedo, que a noite não estava desenhada a verde e branco

Rui Patrício não evitou a hecatombe do Sporting com o FC Porto, sofrendo três golos em duelos com o avançado. Especialista a sair da baliza, a antecipar a decisão dos adversários, a definir o tempo de intervenção e os segmentos corporais para tapar o caminho ao atirador – já travou Diego Costa, Fàbregas, Schürrle, Oscar, Salah e Jackson em situações semelhantes nesta época – nada pôde fazer diante Tello, que o bateu por três vezes sem hesitar. Prova de que, para lá do talento e das suas especificidades, a confiança é um valor fundamental no futebol.

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