O perfil triste de um talento

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1. Herdou um nome e o perfil triste do pai António, que foi um dos melhores jogadores da História do futebol português; respeita o código genético e subscreve o estilo desfasado da exuberância criativa que vai marcando diferenças: por princípio, reprime o sorriso; por temperamento, responde à felicidade que oferece aos outros com a revolta de quem tem contas a ajustar com o Mundo. Ricardo Sousa é a imagem amargurada de um grande talento à procura do palco ideal e de um futebolista com soluções individuais para oferecer ao colectivo, de cujo funcionamento se afasta com demasiada facilidade. Uma fuga que releva a esperança de aproveitar a solidez do prédio onde vive e na qual está implícita a promessa de que voltará mais tarde para assinar os desequilíbrios vitoriosos.

2. Ao seu jogo falta sentido comum e presença assídua no trabalho sujo; Ricardo Sousa não dá o estilo, mas acrescenta opções na zona de definição; não assume o papel do distribuidor clássico, mas transporta argumentos para decidir cada vez mais à frente (e até já marca de cabeça, na área, como em Moreira de Cónegos). Afastada a hipótese de ser uma espécie de Rui Costa ou Zidane do Boavista, aperfeiçoa os dotes de segundo avançado que o aproximam do estilo de Kaká ou Roberto Baggio. Se dos números que traz nas costas (2+8) resulta a soma dos seus sonhos (10), o tempo tem-no revelado como o 9,5 de que Michel Platini falava para caracterizar aqueles que se movimentam à frente dos médios e atrás dos pontas-de-lança - os tais intermediários que trazem o golo nas veias, também pela habilidade das bolas paradas.

3. O melhor marcador português da SuperLiga, com 13 tentos (mais dois que Simão), actua numa equipa que, em 30 jornadas, apontou apenas 27 golos (terceiro pior ataque do campeonato, igual ao Moreirense, atrás de Estrela da Amadora e Paços de Ferreira). Batido o máximo pessoal de onze remates certeiros, obtido nas épocas de 2000/01 e 2002/03, ao serviço do Beira-Mar, Ricardo Sousa tem diversificado os recursos técnicos para alimentar dotes de concretizador. Mesmo sem inverter a tendência das equipas que representa - em Aveiro o espectro da descida, no Bessa o meio da tabela -, satisfaz a estatística e é considerado inesquecível por onde passa - ou já se esqueceram da Taça de Portugal conquistada graças a uma obra-prima do seu pé esquerdo?

4. Ricardo Sousa reage mal ao erro e à desinspiração; é susceptível às reacções negativas das plateias e não sabe interpretar todos os sinais exteriores; chega a ser uma surpresa mesmo para quem o conhece e nem sempre por bons motivos. O balanço do que fez até aos 25 anos (44 golos assinados no escalão principal, por exemplo) confirma a imagem de fantasista melancólico e revoltado em comunidades não totalmente apetrechadas para suportar o seu talento e a menor disponibilidade para todo o serviço. Falta saber até onde poderá chegar enquadrado numa equipa que o ampare e projecte; que lhe dê prestígio e ainda mais responsabilidade. Para isso, tem agora de cumprir a sua parte no processo de aproximação ao colectivo e recusar o papel de sujeito passivo na história brilhante que pode ser o seu futuro como jogador.

Passe curto

Ajuda da estatística. Liedson começava a precisar de números para suportar a aura de grande avançado. Com o Estrela da Amadora, e de uma vez só, marcou três golos: nada que faça aumentar a admiração pelas suas qualidades como jogador, mas muito para suportar função dependente, em parte, de factos concretos.

Obra de engenharia. O Moreirense é uma obra de engenharia futebolística, feita de rigor, competência e racionalidade. Um projecto institucional, uma ideia técnica e uma equipa extraordinária na assimilação dos valores colectivos. O oitavo lugar fala por si.

Ninguém se entende. Geovanni joga de início e o sentido de justiça de Camacho atira-o para junto dos suplentes; uma semana depois sai do banco, entra e ajuda a resolver os jogos. Se o brasileiro mantiver o orgulho de ser futebolista, o Benfica tem ali um jogador de grandes recursos técnicos.

O chicote sobre Quaresma. Rijkaard transformou em espectáculo mediático, diante câmaras de televisão e máquinas fotográficas, a conversa que jamais teve com Quaresma. Se o miúdo exagerou nas palavras, o treinador agiu como capataz: chicoteou o prevaricador na praça pública, em frente aos companheiros. Afastá-lo depois disso é só mais uma prova de que o Harry Potter não está em boas mãos.

Em defesa da "geração de ouro"

O respeito pelas equipas não depende só de vitórias. Foi a grandeza das emoções que deu à Laranja Mecânica da Holanda em 1974 o enquadramento eterno que tiveram os Magriços em 1966. Por isso, a relutância em chamar "geração de ouro" ao grupo de jogadores que mantém Portugal no topo da Europa há perto de dez anos, com o argumento de que nada venceu, é um absurdo: à excepção dos títulos das camadas jovens, o futebol português a nível de selecções A continua a zero.

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