O princípio do fim
Enquanto a presença de Portugal no Mundial continua a ser feita em gabinetes de ministros, alimentada de histórias inócuas e de conferências de Imprensa mal preparadas, aí está a primeira vítima a sério do desvario colectivo da expedição ao Oriente: Paulo Sousa, cansado de lutar contra lesões, mas também marcado pelo clima que encontrou no grande palco, decidiu pôr termo à carreira. Com esta decisão, tomada logo a seguir ao regresso da Coreia, o mais laureado jogador do seu tempo, único médio-centro português de expressão mundial desde Mário Coluna, confirmou características já conhecidas (lucidez, inteligência, firmeza, diferença) e lançou o alerta que já devia ter sido ouvido: começou o princípio do fim de uma geração excepcional e do sonho que a alimentou.
Não está em causa qualquer dúvida sobre a competência, a disponibilidade e o rigor de Paulo Bento, Petit, Vidigal, Costinha, Fernando Meira, Delfim e Bino, os homens que têm desempenhado a função que foi exclusivo de um homem só até 1996; nem se pode falar dos efeitos devastadores provocados pela derrota agora anunciada de um jogador para os limites da saúde, da motivação, da paciência e da ilusão. Se tiver de conseguir um grande resultado internacional, a selecção não deixará de o conseguir só pelo facto de ter perdido um dos seus expoentes máximos. E isso porque o pior já passou: dramático foi não tê-lo na meia-final do Euro-2000 (talvez tenha custado o título) e no Mundial de 2002 (no mínimo, teria sido mais difícil perder para americanos e coreanos).
Na hora do adeus prematuro, Michel Platini contrariou o homem pragmático e pouco dado a dramatismos, imagem de que a final do Heysel, em 1985, é o ponto mais alto – à morte de 39 adeptos da Juventus respondeu com exuberante felicidade nos festejos da vitória frente ao Liverpool, decretada por um "penalty" inventado para o efeito. Aquele que permanece como um dos melhores jogadores mundiais de todos os tempos começou o seu livro "A minha vida como um jogo" da seguinte forma: "Morri a 17 de Maio de 1987, com a idade de 32 anos, no dia em que me retirei do futebol." Os tempos mudaram, a vida, o futebol e as pessoas também. Paulo Sousa despediu-se com dor estampada no olhar, com emoção nas palavras e evidente dose de revolta subentendida no conteúdo do discurso que leu. Parte prematuramente, mas deixou uma mensagem de optimismo e não morreu a 25 de Maio de 2002, em Macau, aos 40' do jogo com a China. Simplesmente recomeçou a viver.
