O que mudará nos fundos
As reuniões do presidente do Sporting com a FIFA e a UEFA, a propósito dos fundos de investimento no futebol, voltaram a lançar o debate sobre esta matéria. Sempre defendi que esta era uma área a necessitar de maior regulação, mas mais do que a sua extinção, que me parece sinceramente pouco provável, pede-se uma maior transparência das operações.
É natural que Bruno de Carvalho mantenha a sua cruzada contra os fundos, um caminho que o Sporting acabou por assumir ao rasgar o contrato com a Doyen Sports no momento da transferência de Marcos Rojo para o Manchester United. E que repercussões saíram, para já, desta decisão? O simples facto de mais nenhum fundo estar interessado em negociar com os leões.
Esendo os fundos parceiros estratégicos de FC Porto e Benfica, o que constitui uma vantagem competitiva na captação de melhores jogadores, o Sporting vê na extinção dos fundos de investimento uma forma de enfraquecer os rivais e voltar a equilibrar a balança a seu favor. Mas dificilmente os fundos vão acabar. São uma forma de financiamento que pode assumir várias modalidades de negócio e, tal como muitos multimilionários compram clubes, também algumas entidades vão continuar a aplicar os seus investimentos no futebol.
Oque está em causa é a partilha de passes com fundos de investimento. Algo que já é proibido em Inglaterra (o chamado “third-party ownership”) e o que verdadeiramente a FIFA também pretende eliminar. Mas que fique claro: isto não acabará com os fundos, que, tal como uma instituição bancária, continuarão a financiar os clubes em contratações, sendo depois compensados com uma percentagem de uma futura transferência ou por uma taxa de juro pré-estabelecida. É isto que os fundos já fazem em Inglaterra, e será certamente o modelo que adotarão noutros países.
Abatalha da FIFA e da UEFA está aqui: acabar com a partilha de passes por terceiros. E com a torneira dos bancos a fechar-se, sem falar na fuga de patrocinadores, os fundos continuarão a ser uma espécie de tábua de salvação para que os clubes se possam reforçar com jogadores de qualidade que de outro modo nunca poderiam vir, com o objetivo de os valorizar e tirar proveitos financeiros disso.
Não é a solução ideal, mas para clubes de países como Portugal, com falta de recursos financeiros, a dependência dos fundos ou de algum milionário para se tornarem mais fortes são das poucas alternativas. E encaixa aqui a questão da transparência. Este modelo de negócio só teria a ganhar se existissem regras que obrigassem a conhecer os acionistas que representam os fundos e a definição, no momento da compra, dos valores em causa de cada negócio e também das quantias a pagar pelos clubes para recuperarem a totalidade dos direitos, entre outros aspetos relevantes.
Desta forma, saberíamos que entidades estavam a financiar o futebol e quais as suas intenções num negócio que move imensos milhões sem qualquer tipo de controlo. E isso é algo que FIFA e UEFA tinham possibilidades de impor. Por que nada fizeram até hoje para mudar alguma coisa? Essa é que deveria ser a pergunta que todos deveriam fazer aos senhores Platini e Blatter.
Também na ordem do dia está a questão da regulamentação e legalização das apostas desportivas em Portugal. Um tema que se discute há vários anos e que sempre teve mais recuos do que avanços. Seria importante para os clubes que esta fonte de receitas, existente em vários países europeus, também fosse permitida em Portugal.
O CRAQUE
Preparar o futuro
O FC Porto renovou contrato com André Silva, uma notícia que registo com agrado, uma vez que se trata de um dos jogadores mais promissores da formação azul e branca. Os clubes estão a perceber que têm de aproveitar os recursos que têm dentro de casa e potenciar o seu talento para que, a médio prazo, cheguem ao nível da equipa principal. Se evoluir como se espera, André Silva, que brilhou no Europeu de sub-19, poderá vir a ser o ponta-de-lança que tem faltado ao ataque da Seleção Nacional. O talento está lá. Agora só faltam as oportunidades para brilhar.
A JOGADA
Fracasso europeu
Enorme falhanço. A precoce eliminação do Benfica das provas europeias acaba por ser um fracasso de que nenhum dos seus responsáveis estava à espera. Com maior ou menor dificuldade, as águias eram favoritas. No plano financeiro, acaba por ser um duro golpe nas contas encarnadas, que previam um maior volume de receitas provenientes da Champions. Para uma análise mais detalhada ficam duas questões: por que é que só por uma vez em cinco anos Jorge Jesus conseguiu passar a fase de grupos da prova? Como se explica que, em cinco jogos disputados, o Benfica tenha terminado três com menos um jogador?
A DÚVIDA
O caso que prejudicou Kléber
O Tribunal Arbitral do Desporto condenou o Marítimo a pagar 1,55 milhões de euros ao Atlético Mineiro na sequência do “Caso Kléber”, por impedir que o Atlético Mineiro negociasse com o FC Porto sem exercer o direito de opção para a compra do atleta, na altura emprestado aos madeirenses. Olhando para trás, o mais prejudicado acabou por ser o jogador, que só veio para o Dragão uma época depois, num ano em que saiu Falcão e em que Kléber foi lançado às feras como titular sem estar ainda preparado para tal. Se viesse mais cedo, a sua história teria sido diferente?
