Opinião

Francisco Baptista Vereador do Desporto da CM Odivelas

O que têm em comum Zicky Té, Kutchy, os irmãos Paçó, Pedro Santos, Turé e Maria Rocha?

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Sete jogadores, diferentes posições, gerações e percursos. Todos chegaram à Seleção Nacional de futsal.

Mas há outra coisa que os une: todos começaram a jogar futsal em clubes do concelho de Odivelas.

Recuemos a 7 de fevereiro de 2026.

Na Arena Stožice, em Ljubljana, Portugal e Espanha disputavam a final do Campeonato da Europa de Futsal. Jorge Braz escolheu para o cinco inicial Bernardo Paçó, Tomás Paçó, Erick, Bruno Coelho e Pany Varela.

Dois dos cinco jogadores escolhidos para iniciar uma final europeia por Portugal tinham começado a jogar futsal no mesmo clube: o Grupo Recreativo do Olival de Basto (GROB), em Odivelas.

Um concelho com apenas 27 quilómetros quadrados.

E os irmãos Paçó não estavam sozinhos. Entre os 14 jogadores que representaram Portugal no Euro 2026 estava também Kutchy, que começou a jogar futsal na Associação Cultural, Social e Desportiva da Arroja, também em Odivelas.

Feitas as contas, três dos 14 jogadores portugueses — 21,4% da Seleção Nacional tinham passado pela formação de clubes do concelho.

Poderia ser uma coincidência. Uma geração particularmente feliz. O problema dessa explicação é que a história não termina aqui.

Zicky Té (Já considerado o melhor jogador de futsal do mundo), Pedro Santos e Mamadú Turé também chegaram à Seleção Nacional A e têm Odivelas nos seus percursos de formação.

Zicky Té passou pelo GROB e pelo Póvoa de Santo Adrião Atlético Clube (PSAAC) antes de chegar ao Sporting. Pedro Santos começou no PSAAC e seguiu igualmente para Alvalade. Mamadú Turé passou pela Associação Cultural, Social e Desportiva da Arroja antes de ingressar no Sporting.

E esta história também se escreve no feminino.

Maria Rocha, internacional portuguesa de futsal, passou pela União Desportiva e Recreativa de Santa Maria e pelo Clube Atlético e Cultural da Pontinha, dois clubes do concelho que contribuíram para o seu percurso desportivo.

Bernardo Paçó, Tomás Paçó, Zicky Té, Kutchy, Pedro Santos, Mamadú Turé e Maria Rocha.

Sete internacionais portugueses. Cinco clubes. Vários percursos. Um território em comum.

Mas esta ligação não começou agora.

Já na década de 2000, o futsal de Odivelas contribuía para a Seleção Nacional. Gonçalo Alves, João Marçal e João Correia (Jony), do Atlético Clube de Odivelas, João Benedito, da União Desportiva do Olival de Basto, e Eduardo Fernandes, do Grupo Desportivo dos Bons Dias, são exemplos de uma geração que levou o nome do concelho ao mais alto nível do futsal português.

Cinco internacionais, três clubes do concelho e uma história que começou muito antes dos protagonistas de hoje.

Quando os resultados se repetem ao longo de diferentes gerações, talvez seja necessário deixar de procurar a explicação no acaso e começar a olhar para a base.

Odivelas tem oito clubes com prática de futsal e mais de 1.200 atletas. Cinco desses clubes são entidades certificadas pela Federação Portuguesa de Futebol e um sexto tem o processo de certificação em curso.

Naturalmente, uma certificação não forma um internacional português. Uma placa na parede não ensina uma criança a receber uma bola nem transforma talento em rendimento.

Mas bons processos de formação, treinadores qualificados e estruturas preparadas fazem a diferença.

E talvez aí esteja parte da explicação.

Os sete internacionais são apenas o topo de uma pirâmide muito maior.

Nos últimos anos, dezenas de jovens dos clubes de Odivelas têm sido recrutados para prosseguir a formação nas estruturas do Sporting CP e do SL Benfica, tendo alguns deles sido chamados à Seleção Nacional nos diferentes escalões.

A maioria não chegará à Seleção Nacional A. Mas este fluxo continuado para algumas das melhores estruturas de formação do país constitui, por si só, um reconhecimento do trabalho realizado pelos clubes do concelho.

No alto rendimento, temos tendência para olhar para o último clube que formou o atleta e esquecer todos os que vieram antes.

Mas nenhum jogador começa na Seleção Nacional.

Antes da camisola das quinas houve uma camisola mais pequena. Antes do Pavilhão João Rocha e do Pavilhão Fidelidade houve um pavilhão de bairro, houve treinadores que ensinaram os primeiros fundamentos, dirigentes que mantiveram equipas em competição e famílias que fizeram incontáveis viagens para treinos e jogos.

E houve clubes que aceitaram uma das missões mais importantes do nosso sistema desportivo: formar, sabendo que, se fizerem muito bem o seu trabalho, provavelmente verão os seus melhores jogadores partir.

Por isso, o sucesso de um clube de formação não pode ser medido apenas pelos troféus que guarda na sede.

Por vezes, o maior troféu é precisamente o jogador que já lá não está.

Odivelas é um bom exemplo disso.

E esta ligação ao futsal não termina nos jogadores.

Mário Silva, antigo treinador do SL Benfica, nasceu em Odivelas. Paulo Fernandes iniciou o seu percurso como treinador no Grupo Desportivo dos Bons Dias.

João Marçal, treinador, antigo jogador do Sporting CP e do SL Benfica, iniciou a sua formação no Atlético Clube de Odivelas. Mais tarde, fundou o Clube Desportivo do Jardim da Amoreira, também em Odivelas, que se tornou uma referência na formação e um dos clubes com mais atletas federados do país.

São percursos que demonstram que o conhecimento adquirido no desporto também pode regressar às comunidades onde tudo começou.

Talento gera talento. Conhecimento gera conhecimento. Boas estruturas permitem que ambos se multipliquem.

Talvez, por isso, não devamos chamar a Odivelas uma «fábrica de talentos».

Uma fábrica pressupõe uma linha de produção. E o talento desportivo não se fabrica, cultiva-se.

Precisa de clubes, treinadores, dirigentes, famílias, instalações, competição, oportunidades e tempo.

É isso que transforma um conjunto de clubes num verdadeiro ecossistema de formação.

E estes resultados trazem também responsabilidade.

 

O desafio de Odivelas não é apenas celebrar quem já chegou à Seleção Nacional. É garantir que os clubes continuam a ter condições para formar quem está agora a começar.

Mais de 1.200 atletas significam pressão sobre as instalações desportivas. Melhor formação exige treinadores cada vez mais qualificados. Clubes mais estruturados precisam de dirigentes preparados, de recursos adequados e de condições para crescer de forma sustentável.

Porque o verdadeiro sucesso não será olhar para trás e concluir que Odivelas teve uma geração extraordinária.

Será, daqui a dez anos, podermos escrever este mesmo artigo com outros nomes.

E há razões para acreditar nessa continuidade. As seleções nacionais jovens já contam com atletas que iniciaram a sua formação em Odivelas. São eles que demonstram que esta história não pertence apenas ao passado e ao presente.

O futuro está a ser construído nos pavilhões do concelho.

Naquela noite de fevereiro, em Ljubljana, dois dos cinco jogadores escolhidos para começar uma final do Campeonato da Europa por Portugal tinham dado os primeiros passos no futsal no mesmo clube de Odivelas.

Mas talvez o maior motivo de orgulho seja outro.

O verdadeiro mérito de Odivelas não está apenas em ter ajudado a formar sete internacionais portugueses. Está no facto de nenhum deles parecer ser um acaso isolado.

E há uma última curiosidade que torna esta história ainda mais especial.

No próximo dia 16 de outubro, a Seleção Nacional regressa a Odivelas para disputar, frente à Dinamarca, a primeira jornada da fase de qualificação para o Campeonato do Mundo de Futsal de 2028.

Entre os convocados de Jorge Braz estão três jogadores que iniciaram a sua formação no concelho: Bernardo Paçó, Tomás Paçó e Kutchy.

Três jogadores que começaram nos clubes de Odivelas e que agora regressam para representar Portugal, com a camisola das quinas, perante a comunidade onde deram os primeiros passos no futsal.

Há um simbolismo especial neste regresso. Para os jovens que hoje treinam nos pavilhões do concelho, a oportunidade de ver estes jogadores representar Portugal tão perto de casa é também uma forma de perceber que os grandes sonhos podem começar num pequeno clube de bairro.

Odivelas tem apenas 27 quilómetros quadrados. No mapa do futsal português, ocupa muito mais.

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