O regime do compadrio

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O regime do compadrio
O regime do compadrio

Os ecos do recente Braga-Benfica mostram bem o estado em que se encontra o futebol português. O atual presidente da Liga, candidato à presidência da FPF, Fernando Gomes, fez exatamente o contrário daquilo que a situação aconselhava. Perante declarações suspeitas e erráticas, graves, não deveria haver “encolher de ombros” ou comodismo. Estamos fartos de líderes ou candidatos a líderes que olham, primeiro, para os presidentes dos clubes, para um certo equilibrismo, e não para o futebol e para os adeptos. A postura de Alan e Artur Moraes não pode ser considerada “natural”. Três apagões e acusações de racismo deveriam suscitar uma reação do presidente da Liga no sentido do apuramento de “toda a verdade’” e não, como aconteceu, relativizar imediatamente o sucedido. O interesse do futebol (com verdade) tem de estar acima das amizades e das conjunturas (eleitorais). Não estou a falar de condenações sumárias. Estou a falar de inquéritos céleres e eficazes.

Creio que esta condição de presidente da Liga e, simultaneamente, de candidato à presidência da FPF que por ora Fernando Gomes protagoniza também não ajuda nada à afirmação daquele que deveria ser “o guardião do futebol” e não o “guardião dos clubes”. O problema é que o sistema eleitoral, mesmo com as alterações produzidas no mais recente regime jurídico das federações, não promove as devidas e suficientes equidistâncias. É uma pescadinha de rabo na boca.

O que se espera de um líder do futebol português é que, independentemente da força de cada um dos clubes, seja vigilante e atue de acordo com as situações que vão ocorrendo. Menos de 24 horas depois do fim da partida em Braga, já o presidente da Liga afirmava que o organismo que lidera não iria apurar responsabilidades no caso das falhas de energia elétrica [considerando, pelo que se percebe, as explicações dadas por António Salvador, no momento a Luís Filipe Vieira]. Mais: quando confrontado com afirmações do guarda-redes do Benfica, Artur Moraes, segundo as quais “sempre que o Benfica queria acelerar o jogo, acontecia o apagão”, Fernando Gomes afirmou que é Artur Moraes quem tem de explicar aos jornalistas o que significam “coisas estranhas”.

Parece-me claro que, perante as boas relações entre Luís Filipe Vieira e António Salvador, parceiros noutros negócios, Fernando Gomes, em tempo eleitoral, não quis ser mais papista do que o Papa. Por outro lado, uma organização que queira proteger os interesses do futebol, e só do futebol, não deveria dizer que Artur Moraes deve explicar aos jornalistas o que quis dizer sobre as “coisas estranhas” do jogo de Braga... É que, mesmo partindo que nada de grave aconteceu, é preciso responsabilizar quem produz declarações gratuitas e incendiárias.

Infelizmente, os interesses particulares continuam a justificar as omissões. O “regime do compadrio” acima de tudo. É pena. Porque gostaria de acreditar em Fernando Gomes.

NOTA – Cristiano Ronaldo tem todo o interesse em estar no Euro-2012. Será suficiente para eliminar a Bósnia? Quantos jogadores pode Portugal perder mais, em nome dos egos, da casmurrice e de lideranças falhadas?

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