O regresso do artista
1. Nunca usou catálogos – limitou-se a criar pelo caminho, determinado a ser alguém na vida e a cumprir o sonho de grandeza habitual para quem nasce num mundo de privações. A bola foi paixão arrebatadora, à qual se agarrou como tábua de salvação definitiva; com ela cresceu e se tornou poeta de rua, daqueles que nem sempre são aceites como figuras maiores. O fim do romance é conhecido: da junção entre ambos (João Pinto e a bola), o futebol português concebeu alguns dos quadros mais fabulosos da sua história. Na fase de crescimento, o ensino académico e os conselhos dos mestres serviram para enquadrar a magia e moderar (nem sempre com êxito) os pressupostos de vingança social gerados na infância. A ciência, ao contrário do que vai fazendo com outros, não lhe danificou o instinto.
2. Acusado de ir ao chão com facilidade, muitas vezes em zonas neutras, o que inspira João Pinto não é a queda mas o acto de levantar-se. Quando se ergue e mostra que o atingiram em vão, desperta as musas, descobre ainda mais força para fazer a diferença e aumenta o arsenal de argumentos intimidativos. É a metáfora da sua vida, na qual concentra vitimização, coragem, revolta, autoconfiança e orgulho. Por isso, podendo jogar em qualquer posição do meio-campo para a frente, é mais perto da área que o seu futebol ganha dimensão; é aí que os dribles, os passes, os remates e até as faltas são mais úteis. Tendo intimidade com o golo (de cabeça é um fenómeno), o esplendor máximo da sua arte é o efeito milagroso que pode imprimir a um simples toque na bola: são punhais cravados nas costas da defesa e, ao mesmo tempo, ramos de flores oferecidos a um companheiro.
3. Na férrea disciplina de Jaime Pacheco, intransigente com as ideias, os métodos e o sistema; numa equipa que não acreditava na livre iniciativa e dava rédea curta à inspiração, João Pinto perdeu-se. Escolhera o Bessa para acabar a carreira em beleza e sobretudo em paz mas, ao fim de algum tempo, concluiu que vivia apenas nova etapa de uma peregrinação sem itinerário nem fim à vista. Mergulhado em brumas de desencanto, emergiu numa equipa menos repressiva, mais sensível à criatividade e que altera o peso relativo de valores como ordem, aventura, liberdade e talento. Depois de ter empunhado bandeiras de desespero e se ter entregue a mágoas silenciosas, João Pinto transformou-se no símbolo de esperança de uma equipa que tem ainda uma palavra a dizer na Liga 2005/06.
4. Recuperado o entusiasmo juvenil pelo jogo, que o transporta para as melhores recordações da adolescência, João Pinto continua a ser, ele próprio, uma vertigem de deslumbramento. Orientado pelo saber de Carlos Brito, recuperou aquela ciência desconhecida que antecipa os problemas, esclarece o modo de enfrentá-los e ilumina a sua resolução. Agora, como há 20 anos, joga por vocação e para ser feliz; ontem para vencer as privações, hoje para recuperar a boa memória de tempos que não voltam mais. É inevitável que venha a ter saudades da bola, por tudo quanto ela representa na sua vida; e enquanto o artista vai preparando o momento da retirada, os adeptos deliciam-se com as últimas gotas do génio eterno, orientados pela nostalgia antecipada de quem o vai perder um dia destes. A falta que ele nos vai fazer…
Um símbolo de esperança
Enquanto o artista se prepara para a retirada, os adeptos deliciam-se com as últimas gotas do génio eterno, orientados pela nostalgia antecipada de quem o vai perder um dia destes. A falta que ele nos vai fazer…
Quem decide é o árbitro
O árbitro vê um lance na área, analisa-o e decide; o assistente, que está à mesma distância (ou até mais longe), vê o mesmo lance mas interpreta-o de outra forma, só que levanta a bandeirola e corre para a linha de fundo.
Perante essa manifestação pública, o que faz o juiz? Para não se expor, aceita subalternizar-se. O que esses assistentes pretensiosos precisam é de quem chegue ao pé deles e os mande para os seus lugares.
Lá, de onde não deviam ter saído, devem conversar e confrontar opiniões. No fim, o ÁRBITRO decide. Não pode ser de outra forma.
Pode ser que não seja nada…
Se sair o goleador da equipa, ficam mais compostos os cofres do clube. Os golos de Meyong não tiraram o Belenenses da zona perigosa, embora sem eles a situação fosse dramática. Chegou a custo zero e pode partir, sete meses depois, por 2 milhões de euros. Um risco assumido, mesmo considerando que nos cinco jogos sem ele (e um foi com o Sporting), os azuis somaram 8 pontos e apontaram 11 golos.
Projecto por concluir
Há muito que perdeu margem de tolerância. Carlitos viajou à velocidade do som entre esperança e desilusão, aposta e desistência. Na Luz, pura e simplesmente deixou de contar – era um peso morto no plantel de Koeman. No Bonfim estão a dar-lhe espaço de afirmação, confiança e uma perspectiva de carreira. Confirmou em Leiria que não é um jogador qualquer e que, mesmo tendo sido tão maltratado, permanece como um grande projecto.
Um rosto de esperança
Está a fazer grande época numa equipa a passar por dificuldades crónicas. Jaime Pacheco nunca prescindiu do seu futebol, Vítor Pontes escolheu-o como referência criativa da retoma. Neca organiza, defende e ataca; joga curto e longo; passa, leva a bola, trava, arranca e é omnipresente no futebol vimaranense. Frente ao Benfica marcou um golo espectacular com o pé esquerdo (ele que é destro), dentro da grande área, com espontaneidade de ponta-de-lança. Está feito um craque.
