O regresso do monstro

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1. O tempo cumpriu a obrigação e deu-lhe a experiência que o tornou ainda mais brilhante e seguro. Ele aceitou as regras do jogo e seguiu o manual adequado às circunstâncias: aperfeiçoou o domínio dos valores adultos que só a idade permite interpretar totalmente (serenidade, estatuto, liderança…) e manteve intactos os pressupostos adolescentes de quem entrou nas nossas vidas, no final da década de 80, como fenómeno precoce baseado em raciocínio rápido, confiança, trabalho e talento natural. Porque o processo de construção de um guarda-redes é evolutivo e contingente - exige um enriquecimento gradual de argumentos, proibindo danos irreparáveis naqueles que já são considerados adquiridos -, só entre os 33 e os 34 anos consumou o resumo de todas as qualidades e atingiu a máxima expressão como grande senhor das balizas.

2. Defensor de conceitos estéticos apurados, Vítor Baía adaptou elegância e desejo de participação às necessidades do colectivo. Moderou ímpetos e transformou-se na verdadeira enciclopédia do guarda-redes de grandes equipas: por ser um espectador que também entra no filme, estimulou os requisitos da paciência; por ser um observador que não está autorizado a distrair-se, mantém a concentração em alerta máximo; por ser um protagonista eterno mas passar boa parte do tempo como actor secundário, controla as emoções e armazena dados no disco rígido enquanto a acção se desenrola do outro lado do campo. Agora que joga cada vez melhor com os pés, já não é um prisioneiro da área; mas porque o sentido de responsabilidade fala mais alto, também não será afectado pelas extravagâncias de quem pretende conquistar o Mundo.

3. Perto dos 30 anos, imposto obrigatório que os guarda-redes pagam para atingir a plena maturidade, lesionou-se gravemente no joelho direito. Nesse percurso de dor e esperança, decidiu recuar no tempo e recuperar, no papel de veterano em dificuldades, a força motriz da juventude: em nome de um sonho, reformulou o conceito de ambição e o orgulho de ser jogador de futebol; porque não queria ficar a meio da viagem, despertou as memórias do que já fizera e valorizou a importância do nome que construíra ao longo de uma década. Sim, os seus limites estiveram quase a derrotá-lo; sim, entre 1997 e 2001 teve aparições esporádicas, muitas delas com o objectivo de afugentar (nem sempre com êxito) os fantasmas criados pela sua ausência. No fim, quase em desespero, reclamou uma última oportunidade. Ele lá sabia porquê.

4. Vítor Baía é um jogador de época, cuja expressão e peso relativo na história do futebol só encontra paralelo nos mitos de Azevedo, Carlos Gomes, Damas e Bento. Concluída a travessia que o trouxe de volta ao pedestal de melhor guarda-redes português - com a diferença de agora o ocupar com mais e melhores soluções técnicas; recuperada a disponibilidade física total que lhe devolveu a coragem e a confiança indispensáveis ao desempenho da função, pode até fazer um brinde às motivações perversas de quem reclamou vitória antes de tempo. Ultrapassadas dúvidas e ingratidões; desmascarada a vingança daqueles que despejaram ódios acumulados em silêncio quando o sentiram próximo do fim, Vítor Baía não tem de se preocupar: a quem discute os seus méritos como guarda-redes já só resta o preconceito, a ignorância e, em certos casos, a patetice.

Um enorme Figo em Camp Nou

Luís Figo foi enorme em Camp Nou. Ao longo de hora e meia sob a insuportável pressão de um clima hostil, deu lições de carácter, qualidade técnica e exuberância física, ao mesmo tempo que consolidava até perto da perfeição uma nova forma de estar em campo e participar no jogo. Menos vocacionado para alimentar sucessivas explosões pelas faixas laterais, actuou numa zona mais interior, da qual partiu para o apoio das acções ofensivas. Por ele, o Euro-2004 podia começar amanhã.

PASSE CURTO

Não é só pinta

Em Camp Nou, David Beckham provou que não é apenas um produto de "marketing"; que não é fenómeno só feito de pinta mas um dos melhores jogadores do Mundo, que está no sítio adequado ao seu talento superior. Comprometeu-se com a causa, interpretou a dimensão do jogo e, no fim, era dos mais felizes. Um grande exemplo.

Os golos do miúdo

Há 15 dias eram os jogos como titular e as respectivas consequências salariais. João Pereira deu novo rumo à questão: marcou três golos em três jogos e acentuou a ideia de que já se perdeu tempo em demasia com conversas.

Mexer bem na equipa

Rijkaard foi um bom exemplo de opções discutíveis. Lançou Quaresma e Overmars ao intervalo - e mexeu bem na equipa. Prefiro aqueles que escolhem bem de início, mesmo se, depois, lhe mexem pior. Questão de gosto.

A cruz de Antchouet

Em causa estava o local da falta e a bola demorou a chegar ao sítio certo. O árbitro, sempre bem-disposto (ria de quê?), podia escolher mas só puniu Antchouet (segundo amarelo e rua). Uma brincadeira a juntar ao "penalty" inexistente, a outra expulsão injusta e a um golo precedido de falta. O Beira-Mar merecia ganhar por 5-0, mas os árbitros não têm de meter-se nessas coisas.

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