O sal do futebol
A última jornada da 1.ª Liga foi bastante produtiva em matéria de golos. Com uma média superior a 4 golos por jogo, o campeonato teve mais encanto na hora da despedida. Os clubes portugueses provaram que é possível chamar pessoas aos estádios com bons espetáculos a valerem o preço do bilhete. Era bom que fosse sempre assim.
Infelizmente não é. Tal só costuma acontecer quando a matemática deixa de condicionar as táticas e os objetivos desportivos e financeiros dos clubes. Ao longo do ano, as equipas apresentam-se com cautelas e caldos de galinha, mais preocupadas em defender um precioso ponto do que em aventurar-se na procura de vitórias. São exigências de um futebol que se transformou em negócio e que nem sempre pensa na qualidade do produto que oferece aos seus consumidores, isto é, os adeptos.
São os golos que fazem vibrar quem gosta de futebol. E um dos atrativos desta 30.ª jornada era ficar a saber quem seria o artilheiro da Liga. Numa corrida taco a taco, Cardozo levou a melhor sobre Lima, apesar do empate nos 20 golos. O paraguaio, muito criticado entre as hostes benfiquistas, é avançado de grande nível. Pode não ter muita habilidade, mas um pé esquerdo fortíssimo e um posicionamento felino na área compensam essa lacuna. Nenhum treinador diz não a um jogador com estas características.
Lima foi um dos responsáveis pela grande época do Sp. Braga. É um avançado rápido, excelente nas desmarcações e com remate fácil, dentro ou fora de área. Acredito que poderia vingar numa equipa de maiores ambições. No entanto, a idade faz com que muitos clubes desconfiem do investimento e retorno que possa dar. Se tivesse jogadores de maior qualidade a servi-lo, acredito que a sua produtividade seria ainda maior.
Foi também a jornada em que se viram hat-tricks, feito cada vez mais raro entre nós. Van Wolfswinkel e Kléber foram os executantes de serviço. O holandês fez excelente época de estreia e já se pode dizer que é um digno sucessor de Liedson no Sporting. É um matador e a estada em Portugal vai ajudá-lo a ser melhor. Por seu lado, o brasileiro deixou uma mensagem aos portistas de que podem continuar a acreditar nele. A próxima época confirmará se tem, ou não, arte e engenho para jogar numa equipa como o FC Porto.
João Tomás voltou a ser o melhor marcador português. Numa lista de goleadores que parece uma verdadeira sociedade das nações, o avançado do Rio Ave é um pequeno oásis no meio do deserto. Apesar da veterania, continua a ter ligação quase umbilical com os golos. Está perto de chegar aos 100 golos na 1.ª Liga e espero que possa atingir essa meta. Se não ficar no Rio Ave, seria bonito que o fizesse ao serviço do clube que deu a conhecer o “Jardel de Coimbra”, a Académica, ainda para mais num ano em que a Briosa participará, ao que tudo indica, nas competições europeias através do seu 13.º lugar (e ainda querem alargar o campeonato?).
Os golos são o sal do futebol e costuma-se dizer que só os faz quem chuta. Esta foi uma época em que, além dos pontas-de-lança, jogadores mais recuados e até defesas também se mostraram inspirados na arte de balançar as redes. James, Nolito e Bruno César, Danilo Dias, Cláudio, Claudemir e Manuel José também souberam como fazer o gosto ao pé.
