O senhor Hugo Viana
1 Apresentou-se com um sorriso malandro e o discurso articulado de quem tem as ideias no sítio; foi apanhado de surpresa com a chamada mas nem o inesperado lhe abalou a lucidez; resistiu ao susto com tranquilidade e, antes de medir a importância do momento solene, optou por usufruir cada instante da noite inesquecível: no final da estreia na SuperLiga, a 1 de Outubro de 2001, com o V. Guimarães, dizia aos amigos mais chegados que, depois de oferecer um golo a Jardel, logo no minuto seguinte a ter entrado, podia até voltar para a equipa B. Hugo Viana expressou então o seu lado inocente, sem forças para reprimir o sentimento de menino feliz a viver o sonho de tratar por tu alguns ídolos de infância. Mas já nessa altura impressionou o modo como controlou as emoções que o empurravam para a euforia e temperou a ilusão com sucessivas provas de bom senso.
2 Hugo Viana teve o descaramento de, aos 18 anos, chegar a uma comunidade de homens feitos e impor-se, não com as armas tradicionais da juventude mas com os argumentos da mais complexa maturidade futebolística. Ele foi o menino que obrigou a equipa a girar à sua volta, suportado em visão ampla e poder de síntese; intuição na análise e talento expresso nas decisões; autoridade técnica indiscutível e reconhecimento absoluto no peso exercido sobre a estrutura colectiva. Sendo um adolescente, introduziu os valores adultos de ordem, cadência e geometria ao Sporting que havia de vencer Liga e Taça; despejou o saco da sabedoria enquanto anunciava o desejo de continuar a aprender; no conceito geral, era um jovem com futuro incerto, e já assumira a responsabilidade de ser a referência criativa do campeão até à zona em que João Pinto e Jardel marcavam o resto da diferença.
3 Em Newcastle marcou passo e desperdiçou um ano de carreira - ficar no Sporting teria sido melhor para todas as partes. Hugo Viana passou meses de martírio, colocado perante inconcebível dilema: partiu como genial maestro ao encontro de uma orquestra em que, afinal, lhe tinham reservado um papel na extrema-esquerda do palco. Na despedida de 2002/03, frente à Bolívia, recuperou o arsenal de qualidades técnicas, tácticas e físicas não aproveitadas em Inglaterra e brindou os portugueses com uma demonstração de classe, retomando o fenómeno da maturidade precoce entretanto interrompido. Em 90' concentrou atributos do repertório e assumiu o papel do distribuidor clássico, legítimo seguidor dos médios-centro que fazem a história do futebol, essa pequena elite que tem na perfeição do passe e em todos os seus segredos a ferramenta ideal para atingir a plenitude de um jogo nobre e altruísta.
4 Viana elege destino para a bola e define um objectivo para o que imaginou; faz cada intervenção parecer simples e marca a diferença pelo domínio de todas as técnicas do seu gesto preferido - com e sem efeito; pelo chão e pelo ar; na horizontal e na vertical; com mais ou menos força. No livro "Vítor Baptista - O MAIOR", de Frederico Duarte Carvalho, o malogrado avançado conta a história de um golo atribuído a quem emprestou involuntariamente o corpo para cumprir intenções alheias: "Mandei a bola contra a cabeça dele, como se fosse uma parede. (…) A bola entrou e toda a gente desatou a gritar: Eusébio, Eusébio, Eusébio, quando afinal o golo tinha sido meu! Ainda hoje ele pensa que o golo foi dele, mas aquele fui eu que o marquei. " Com os bolivianos, Hugo Viana utilizou Fernando Couto e Hélder Postiga com a mesma eficácia com que Vítor Baptista aproveitou a cabeça de Eusébio. Um dia destes, como simples exercício de rotina para testar a precisão, é coisa para escolher o nariz de um vendedor de gelados. Nessa altura pode acontecer que saia em ombros do estádio. Não estranhem: está só a fazer-se justiça.
