O simbolismo do novo mito

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1. No seu futebol arrasador não há lugar para travessuras inconsequentes, antes existe o comprometimento com a causa colectiva acompanhado por relâmpagos de um talento cada vez mais concreto e decisivo. A sua afirmação fez-se em todos os sentidos: no peso institucional absoluto, na relação com os camaradas de armas e no temor que provoca a quem vive do outro lado da barricada. Para confirmar a qualidade superior e cimentar o prestígio internacional, Simão Sabrosa recorre ao comportamento daqueles “cowboys” distintos em “saloon” hostil: seduz pelo estilo, fere pela indiferença, intimida pela pontaria e encanta pela arrogância de quem se motiva com o efeito exercido sobre os outros. Foi essa relação com o exterior que sofreu abalo nas últimas semanas.

2. Simão nunca dependeu de adeptos para atingir patamares de excepção. Assumiu um compromisso com o futebol, com o clube que representa, com os companheiros e com todos os treinadores que encontrou até ao momento; acatou as regras, fez-se à estrada, tornou-se a máxima figura do Benfica e um dos melhores futebolistas portugueses de todos os tempos. Poderá dizer-se que, no escalonamento das prioridades no dia-a-dia futebolístico, foi generoso na parcela atribuída aos seus interesses pessoais – mas a presunção, alimentada por quem lhe está próximo, só serve para desfocar o peso relativo que exerce na comunidade. É, também por essa razão, um jogador que precisa de espaço para se expressar; de uma parcela de terreno na qual não admite interferências, muito menos invasões, sob risco de enferrujar o talento grandioso que possui.

3. As emoções geradas a partir da defesa colectiva do símbolo assentam em pressupostos pouco racionais e não têm qualquer fiabilidade, principalmente porque não contemplam o sentido de justiça. A comunicação entre o jogador e os adeptos, durante a hora e meia do jogo, é automática; o diálogo entre ambos traduz-se de múltiplas formas, tendo como base a oferta futebolística de um e a retribuição (com afecto ou recriminações) dos outros. No caso de Simão, o impulso dos que se revoltaram das bancadas foi impensado e não obedeceu a qualquer plano com segundas intenções; representou apenas o apelo primário ao imediato, sem qualquer esforço para medir o que estava em causa ou apreciar a história de um casamento bem sucedido, que remete para o Verão de 2001.

4. Simão perdeu, por breves instantes, elos de ligação ao clube. Mesmo dizendo que as mensagens trocadas com os adeptos correspondiam, afinal, ao monólogo de quem estava zangado consigo próprio, foi notório que a relação com o exterior se deteriorou. No fim do jogo com o Penafiel, o capitão falou mais para ocultar do que para dizer; deu explicações mais como consequência da revolta do que pela humildade de assumir culpas no diferendo; mais para encerrar o assunto do que para o esclarecer. Simão tem uma carga simbólica (embora menos carinhosa entre os benfiquistas) só comparável, nos últimos 20 anos, a mitos como João Pinto, Rui Costa, Carlos Manuel, Diamantino e Chalana. Recriminá-lo por nada é uma inconsciência; discuti-lo ainda por menos é um crime. Provado fica, igualmente, que as faltas de respeito ferem a sensibilidade mas não chegam para transformar um craque em jogador vulgar. Valha-nos isso.

As reacções do sr. capitão

Recriminá-lo por nada é uma inconsciência; discuti-lo ainda por menos é um crime. Simão provou que as faltas de respeito ferem a sensibilidade mas não chegam para transformar um craque em jogador vulgar. Valha-nos isso.

FLANCO DIREITO

Pinceladas de génio

Com o Nacional saiu em maca, chorando a dor de novo atraso na afirmação; 15 dias depois deslumbrou no Bonfim com um futebol amplo, preciso, versátil, retocado com pinceladas geniais. Carlos Martins continua a adiar a expressão definitiva do talento, mas vai deliciando com preciosidades cuja regularidade é cada vez maior. Permanece como a principal referência criativa do Sporting. E já é uma figura da Liga.

A preponderância de Saganowski

Apesar da reconhecida qualidade, Saganowski não apresenta, isoladamente, contabilidade exuberante – 7 golos marcados em 22 jornadas. Mas enquadremos os números: o V. Guimarães tem 13 golos e deve ao avançado polaco três vitórias por 1-0 e três empates (dois por 1-1 e um por 2-2). Assim por alto, falamos de um jogador que, em 20 pontos, foi responsável directo por 9. Se não é um fenómeno, anda lá perto.

O crédito de Marco Aurélio

Marco Aurélio possui crédito imenso entre a família azul. Tão grande que tem margem de manobra para cometer erros e sentir que o saldo lhe é favorável. Mas está a fazer uma época desastrada, na qual tem sido responsável por muitos pontos perdidos pelo Belenenses, razão pela qual a sua saída da equipa era inevitável – creio que só não aconteceu mais cedo pelas dúvidas suscitadas em relação à alternativa. Ao fim de 18 anos no clube, Pedro Alves tem agora a sua oportunidade. É justo.

A DIFERENÇA ENTRE APITO E BANDEIROLA

Há assistentes que agem como árbitros. Quando, em lance na área, o subalterno corre para a linha de fundo antes de ser tomada uma decisão, não está a dar um conselho ao chefe de equipa: está a substituí-lo, a atropelar competências e a criar um foco de conflito. A maioria dos árbitros aceita como boa a indicação (para evitar ainda mais confusões), mas nem todos o fazem de boa vontade, nomeadamente quando têm a certeza de que vão ser obrigados a dar a cara por erros alheios. Os senhores bandeirolas já têm poder que chegue. Não precisam de exorbitar.

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