O talento precoce de Oblak
1 - Da juventude espera-se que revele uma vocação, determine um talento e alimente todos os sonhos e ilusões. Em tarefas interditas a menores, o tempo serve para adequar qualidades genéticas aos valores que regem a selva em que vivemos, razão pela qual a glória depende tanto do que aprendemos como do talento natural. Só quem manifesta disponibilidade para acumular dados e arrumá-los na memória, resiste ao deslumbramento e relativiza a força de êxitos parciais pode cumprir as promessas mais embrionárias da existência. Quando o treinador de uma equipa grande aposta num miúdo com 21 anos para defender o cofre-forte da comunidade, os mal-entendidos são inaceitáveis. Se Jorge Jesus escolhe Oblak, é fundamental que isso reflita a uma convicção profunda. O contrário seria lançar um jovem às feras, com os malefícios resultantes para todas as partes.
2 - O guarda-costas das maiores potências, a única estirpe que interessa à história do futebol, só atinge a grandeza plena quando aceita a escravidão do trabalho e modera o desejo de participação no jogo; valoriza a precisão de cada gesto e abdica da estética em nome da eficácia; aprimora os diagnósticos em cada lance, torna indiferente o burburinho exterior que o rodeia e modera os ímpetos, rendido aos valores sagrados de tranquilidade, equilíbrio e segurança. De acordo com a informação privilegiada e unânime de quem o conhece bem (já representou Beira-Mar, Olhanense, U. Leiria e Rio Ave), Oblak concentra as qualidades que uma equipa como o Benfica lhe exige: espectador que faz parte da peça; observador que não se distrai; protagonista que passa a maior parte do tempo como ator secundário.
3 - Johan Cruyff recorria, nos tempos em que comandava o Barcelona, a uma frase exemplar: “Quando o guarda-redes defende muito é porque a equipa esteve mal e isso, na minha perspetiva de treinador, é um problema”. Um jovem nem sempre calibra o legítimo desejo de participação constante com as necessidades mais discretas da armada que defende. Oblak relativizou a importância do tempo e abreviou parte do percurso para atingir qualidades adaptadas a exigências tremendas. Não é estátua debaixo dos postes mas também recusa o papel de aventureiro que vive ao sabor do risco; não é múmia que contagia por inércia mas recusa a esquizofrenia que antecipa e dimensiona problemas por nervosismo.
4 - Em regra, o guarda-redes é um puzzle que se completa aos poucos – os 30 anos são uma fronteira imaginária na qual carimba a expressão máxima de qualidades desenvolvidas desde a adolescência. Oblak é a raridade sustentada na manifestação precoce de valores adultos como ponderação, frieza, conhecimento e simplicidade, aos quais agrega classe, instinto, visão, coragem e confiança. Chegou a titular do Benfica como referência na função e sem precisar de mais tempo para moldar o perfil adequado a uma grande equipa. Porque nenhum guarda-redes atinge a expressão máxima aos 20 anos, como Preud’homme, Schmeichel, Van der Sar, Vítor Baía ou Buffon confirmam plenamente, Oblak está apenas no início de uma carreira que, em condições normais, deixará marcas na vida da águia.
Um mito eterno na lenda portista
São cada vez mais raros os estrangeiros que acedem à eternidade do futebol português
Lucho emitiu os primeiros sinais de quebra, traduzidos em opções táticas que visavam poupá-lo a tarefas mais desgastantes. Aos 33 anos, El Comandante já não desequilibrava mas esclarecia; não decidia mas melhorava cada lance em que participava. E unia as tropas só por presença, o que apenas está ao alcance de meia dúzia de predestinados. Numa fase em que os melhores estrangeiros passam pelos relvados nacionais em trânsito para outras paragens, Lucho criou raízes, entrou na história do FC Porto e deixará saudades a todos os adeptos do futebol.
O crescimento do leão Maurício
Chegou ao Sporting oriundo dos escalões secundários brasileiros e suscitou muitas dúvidas
Maurício prossegue com êxito o processo de adaptação ao futebol europeu. São raros os centrais brasileiros rápidos a integrar-se nos padrões de referência que orientam o jogo deste lado do Atlântico – lote que abrange alguns dos melhores defesas da história do futebol. Sem abandonar o estilo de comando, sempre disponível para duelos individuais, o sportinguista revela cada vez mais precisão no tempo de entrada aos lances, no acerto posicional em quase todas as circunstâncias e nas decisões que toma em fases de desarrumação coletiva. Uma surpresa muito agradável.
Rusescu não vai ficar por aqui
O Sp. Braga está a melhorar e, pelo que já se viu, soube reforçar-se para o resto da época
Rusescu personifica o êxito que qualquer clube procura no mercado de janeiro. O avançado romeno que o Sp. Braga pediu emprestado ao Sevilha confirma a cada jogo uma sabedoria enciclopédica relativamente à função de ponta-de-lança. Está nos lugares certos antes de os factos ocorrerem, adivinha quase sempre as intenções dos companheiros, os enganos dos adversários e tem um vasto reportório técnico para dar eficácia a esse jogo de vistas largas e atenção aos pormenores. Em três jogos apontou quatro golos. A julgar pela qualidade revelada, é quase certo que não vai ficar por aqui.
