O talento único do miúdo genial

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1. Quando pega na bola, vai disparando rajadas de talento genuíno que nos subjugam por sedução; as suas aparições angélicas, principalmente as que sucedem perto da área, constituem lampejos intermitentes de génio que nos reconciliam com o futebol e provocam a vertigem do deslumbramento. Kaká é uma luz de esperança resgatada do inferno em que a vida nas quatro linhas se está a transformar e a recordação de que, para lá de jogo e fonte geradora de negócio, o futebol é um espectáculo inigualável como expressão de arte e escola de vida. Para atingir esse patamar, o fenómeno com cara de menino de escola submeteu-se às inflexíveis regras do “calcio”. Domaram-lhe o instinto, restringiram-lhe a criatividade, ensinaram-lhe os princípios básicos de uma certa cultura de eficácia e nem por isso deixou de ser feliz.

2. Assente numa proposta mesquinha, limitada e inestética, o futebol italiano recorre a técnicas de marketing e publicidade para embrulhar um grande produto que, depois, só consegue vender à custa de resultados – e todos os meios são legítimos para os alcançar. Kaká resistiu à insuportável solidão do quartel de Milanello, integrou-se na fábrica de hábitos mecanizados que é o Milan de Ancelotti e, coarctado na liberdade que servira de mote à paixão pela bola, tornou-se um jogador ainda mais sumptuoso. Moldado por conceitos repressivos, dimensionou a condição global no modo como reciclou a participação no jogo e se tornou mais robusto fisicamente. Como não perdeu agilidade, presença e capacidade explosiva, tornou-se uma referência mundial.

3. Esta é, afinal, a prova mais recente de que a rigidez conceptual do “calcio” pode contribuir, em larga escala, para que alguns dos maiores executantes da História tenham atingido a expressão máxima como jogadores. Kaká encontrou no Milan a organização, a visão estratégica, o estatuto e os êxitos colectivos que lhe dão o amparo necessário para continuar a crescer e se tornar ainda mais competitivo – alargou a influência e, sendo apenas um médio ofensivo, continua a marcar entre 10 a 15 golos por época. Todo um paradoxo do qual beneficiou, com enquadramentos distintos, gente como Diego Maradona, Platini, Zico, Van Basten, Gullit, Rijkaard, Matthäus, Rui Costa, Nedved, entre outros. Falta-lhe agora definir o espaço entre os deuses do momento.

4. Kaká não tem a magia de Ronaldinho ou Cristiano Ronaldo; falta-lhe a preponderância esmagadora de Zidane, Deco ou Lampard; não dispõe da força mediática de Figo, Beckham ou Raul e nunca chegará aos golos de Shevchenko, Henry, Ronaldo e Eto’o. Mas nenhum futebolista da actualidade interpreta o jogo como ele, porque nenhum reúne tão vasta gama de qualidades: alia o talento extraordinário ao cumprimento das obrigações perante o colectivo; completa a paixão arrebatadora pela bola com o domínio total dos segredos de uma equipa; acaricia os sentidos do espectador com rasgos voluptuosos só ao alcance dos grandes mestres e, ao mesmo tempo, alimenta a música de fundo que alivia o tédio dos tempos mortos. A menos que o destino se distraia, será reconhecido, mais cedo ou mais tarde, como um dos três melhores jogadores do Mundo.

Flanco direito

A COMPETÊNCIA ACIMA DE TUDO. Manuel José recebeu, de uma vez só, os elogios que merecia ter ouvido em 25 anos de carreira – o coro foi oportunista de mais para o meu gosto. Scolari tem duas saídas para o futuro: ganha e legitima as opções ou perde e arrisca-se a que nada fique do seu trabalho, para lá de arrogância e autoritarismo. A competência não depende, apenas, de resultados. A competência tem de estar acima de tudo.

SE O MUNDIAL FOSSE AMANHÃ. De repente, Caneira e Jorge Ribeiro tornaram-se os melhores laterais-esquerdos portugueses, sinal de que Nuno Valente está lesionado, que Rui Jorge parou para pensar e que a Liga está cheia de indisponíveis: Jorge Luiz, Léo, Dos Santos, Cech, Edson, Tello, Paíto e por aí fora. Com toda a admiração pelo esforço polivalente de Caneira, se o Mundial começasse amanhã esse era o calcanhar de Aquiles da Selecção.

A VOCAÇÃO DE PRÍNCIPE. Tiago teve dois jogos para apresentar credenciais como pivot da equipa nacional. Na ausência de Deco, assumiu os cordelinhos da equipa e confirmou a forma que tem sido elogiada em França, como peça fundamental da grande máquina que é o Lyon. O balanço é bom mas não deslumbrante: assinou preciosidades dignas de grande distribuidor mas faltou-lhe continuidade e influência. Nada que surpreenda num jogador com vocação de príncipe mas que nunca será rei.

Paulo Santos e Bruno Vale

A estreia de Paulo Santos na Selecção A é o justo prémio para quem lutou muito até conquistar o seu espaço no futebol português. Mas a questão só faz sentido se olharmos em frente. Atendendo ao que Scolari já disse, a presença do bracarense constitui enigma muito maior do que parece. É mesmo legítimo admitir que Paulo Santos não se junta a Ricardo e Quim, antes se perfila como alternativa a um deles. Porque em relação ao terceiro guarda-redes, “que deve ser jovem, para lançar as bases do futuro”, só uma tragédia evitará que seja Bruno Vale. É só um palpite.

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