O terceiro capítulo
1. Há muito que o futebol é um espelho fiel do meio em que está inserido, porque há quase cem anos atingiu a dimensão de fenómeno popular incomparável; há muito que se tornou apetecível mesmo para quem o despreza, porque em determinado momento da viagem serviu de atalho perfeito para fins pessoais de promoção política e social; há muito que o futebol reclama autonomia, porque nem sempre os modelos em vigor na sociedade – linha de raciocínio, discurso, padrões de comportamento e objectivos – se adaptam às necessidades e respeitam a grandeza do seu passado. Em Portugal, o futebol foi jogo e diversão; resistência e sustentação de regime; tem sido expressão máxima do orgulho nacional e alvo fácil de ódios acumulados; exemplo de iniciativa do País e bode expiatório dos mais variados crimes. Resignado à fatalidade, o futebol chegou ao século XXI vulnerável ao rolo compressor da sociedade de consumo, ou seja, à concorrência feroz e ao lucro que alimenta o negócio.
2. A lógica do sucesso como única abordagem ao Mundo conduziu à escravatura dos resultados; à selvajaria de legitimar qualquer indignidade, desde que legal e recompensada com uma vitória; à ignorância de ver ganhadores em quem pretende só salvar a pele. É essa promoção do efémero que o futebol pôs em rota de colisão com fundamentos éticos e morais; com atropelos aos sagrados valores de competência e paixão; com a deturpação do verdadeiro sentido de razão e justiça. Os treinadores são vítimas fáceis: Fabio Capello e Jaime Pacheco estão a beneficiar, agora que deixaram de ganhar, do crédito pelo trabalho de toda a vida, mas Bölöni e van Gaal, pelo contrário, sabem que, apesar da bagagem de conhecimentos, o suporte da admiração dos adeptos se resume a glórias mais ou menos esquecidas; Luiz Felipe Scolari, apesar do bom trabalho no escrete, só pôde escolher a saída porque foi campeão do Mundo, mas Mourinho, Wenger, Lippi, Del Bosque e Hitzfeld, por exemplo, recolhem unanimidade no reconhecimento.
3. Há ainda um preconceito comum: condenar sem direito à defesa, aqueles que, depois, invertem o destino, triunfam por surpresa e relançam a grandeza do futebol. Manuel Cajuda foi escolhido pela U. Leiria para presidir à “comissão liquidatária” de um sonho colectivo e assumir, com resignação, o fim de um ciclo esgotado – fantástica história concebida por Manuel José, orientada segundo os princípios de convicção, ordem, inteligência e bem-estar, à qual José Mourinho acrescentou cadeia inquebrável de afectos e cumplicidades. Cajuda correu todos os riscos, porque ninguém admitia sequer como hipótese académica a repetição do 5º lugar de 2000/01; porque era impossível ultrapassar a sensação de orfandade provocada no grupo desde que o pai espiritual seguiu para as Antas; porque às saídas de Éder, Nuno Valente, Luís Vouzela, Freddy, Tiago, Derlei e Jaques só teve autorização para responder com a engenharia dos empréstimos, sinal de precariedade financeira e menor disponibilidade para investir.
4. O livro de ouro da U. Leiria ainda não chegou ao fim. Contra todas as previsões, prossegue com terceiro e surpreendente capítulo, explicado pela firmeza de convicções do seu treinador, mas com o suporte da qualidade, nem sempre reconhecida, dos seus componentes: Bilro mede com Paulo Ferreira o título de melhor lateral-direito da SuperLiga; Edson, no lado contrário, só é posto em causa por Rui Jorge e Nuno Valente; Costinha, Renato, Leão e João Manuel integram o lote dos injustiçados, também por esquecimento, do futebol português; Silas é um número 10 capaz de assegurar caudal criativo para marcar diferenças e não apenas em Leiria. Numa equipa iluminada e em estado de graça, João Paulo e Laranjeiro crescem mais depressa; Paulo Duarte, Maciel, Márcio, Douala, Alhandra e Kibuey sabem que não estão a perder tempo; e até Fernando Aguiar, de um dia para o outro, sabe-se lá como e porquê, descobriu a fórmula que sintetiza o espírito indomável de Petit e a capacidade de aproximação à baliza de Tiago.
