O território de Costinha

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1. Nem sempre a atenção, condicionada por focos redutores, coincide com o local onde as coisas importantes acontecem; são os efeitos da discrepância entre a iluminação provocada e os pólos de interesse que ajudam a entender todos os pormenores da história e seus fundamentos; é a perversidade, nem sempre inocente, que alimenta a maioria dos espectáculos, pela mistura de argumentos, pelo desvio dos centros de acção e pela indefinição dos protagonistas. Também o futebol domina o segredo das grandes encenações, primeiro com o objectivo de atribuir a si próprio a magia da teatralização, depois como forma avulsa de apurar o sentido global de eficácia das equipas. A SuperLiga encerra algumas injustiças, não pela grandeza imensa do que é mais notório, mas por aquilo que está menos à vista e não valorizamos devidamente.

2. Foi no Bessa que a vida de Cristiano Ronaldo se transformou, por via de um golo decisivo nos instantes finais – lance com origem no excepcional poder criativo de Carlos Martins, desfocado na altura e hoje quase totalmente esquecido. Mas há mais: só ao fim de sete golos, nenhum de "penalty", Tiago conquistou a visibilidade, o estatuto e a paixão que o génio de Simão tem concentrado em exclusivo; só depois da sublime actuação de Nuno Gomes em Alvalade, em contraponto com o desastre absoluto de Jardel, foi possível explicar que os avançados de dimensão superior não estão dependentes em exclusivo dos golos que marcam; só ao fim de catorze jornadas começa a fazer sentido reclamar luz para todo o palco das Antas, onde evolui o líder da prova, única formação sem derrotas, equipa referenciada a partir da expressão de um dos melhores futebolistas do Mundo da actualidade.

3. Deco tem cometido proeza só ao alcance dos mitos: banalizou a arte e transformou a excepção absoluta numa regra de todos os jogos. Tudo isso no momento em que Vítor Baía regressou à condição de guarda-redes de todos nós; em que Portugal conquistou, como era previsível, um ponta-de-lança para os próximos dez anos (Hélder Postiga); em que Jorge Costa reassumiu a liderança da casa e Maniche foi tão convincente a desfazer dúvidas como firme a confirmar qualidades. E há ainda o excepcional Costinha, talvez o escondido mais influente do FC Porto 2002/03. Na zona do terreno onde se estabelece o equilíbrio que dita o funcionamento da máquina, ele é o fiel depositário da ideia colectiva e do estilo, bem como da hierarquização de princípios elementares, dos quais é, de resto, o exemplo mais perfeito: inteligência, saber, ordem, coerência, paixão e solidariedade.

4. Tal como Redondo, por exemplo, também ele prefere a solidão – o médio argentino disse que jogar com um companheiro ao lado era como se lhe tapassem um olho. Costinha é igual na importância atribuída ao espaço e trata-o com o carinho de quem arruma o seu próprio quarto. Preparado para reagir às más intenções, o sofrimento maior é não saber repartir o território – a preocupação e os nervos são mais fortes que a vontade de ser amável. Sabe-se hoje que a invasão pacífica da privacidade lhe diminuía a capacidade de resposta – não lhe tapavam um olho, mas era como se lhe estivessem a mexer nos objectos pessoais, a abrir gavetas, a deitar lixo para o chão. Isto é, sabe-se hoje que foi, no seu passado azul e branco, um jogador de concentração dispersa, com sentido de orientação deteriorado, marcado pelo inútil desperdício de energia. Agora, Deco e Maniche são os únicos autorizados a entrar sem bater à porta, porque mais do que amigos são cúmplices. Eles e José Mourinho, o treinador que lhe devolveu o sorriso e o recolocou na lista dos melhores médios do futebol português.

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