O toque milagroso
O TRUQUE – Quando Bilro partiu para a bola, descaído sobre a direita, nas imediações da grande área, marcando uma falta de perigo relativo para o Benfica, toda a equipa da U. Leiria estava comprometida com o golpe. O capitão preparava-se para iniciar uma jogada estudada, de êxito não garantido, mas capaz de nos surpreender e mostrar a importância do treino, mesmo numa situação que não excedia o simples pormenor: nem remate directo, nem cruzamento, mas um passe a solicitar movimento que, em caso de perfeição, colocaria não um qualquer, mas o mais fiável de todos os jogadores da equipa, isolado diante do guarda-redes adversário. Um truque fantástico, ao nível do futebol americano ou do grande basquetebol, transformado em golo espectacular, com o valor acrescido de ter sido apresentado num grande palco.
PASSIVIDADE – Existe em Portugal, genericamente falando, uma estranha e criticável forma de encarar as coisas belas: desvalorizá-las no momento seguinte, atribuindo a omissões e erros alheios a sua responsabilidade. O lance da Luz, no entanto, tem uma história feita de capítulos anteriores e que nos remetem para análise não muito favorável, tendo em conta aqueles que foram apanhados desprevenidos. O segredo do golo de Derlei foi a combinação colectiva e o modo como foi executada. Tudo girou à volta da simulação, movimento e posterior remate do ponta-de-lança, mas muito se explica também – e desta vez faz sentido ir por aí – pela inércia de uma equipa que defendia com gente inacreditavelmente distraída. De tal forma que só faltou aos jogadores benfiquistas, culminado o lance, aplaudir e levar em ombros os seus responsáveis.
O TOQUE – Bilro entra na rábula porque naquela zona é normal ser ele a marcar as faltas – logo não levanta suspeitas; Derlei finaliza porque é o melhor marcador, aquele que tem melhor relação com o golo; João Manuel é o vértice da acção, porque nenhum outro elemento do plantel tem um conhecimento tão profundo do jogo e executa com tanta precisão. O seu toque milagroso é a chave do sucesso, o que não surpreende. Falamos de um dos mais espantosos jogadores da I Liga e, ao mesmo tempo, um daqueles casos de desaproveitamento inexplicável a um nível mais elevado, alguém cujo talento se desencontrou com a carreira: só aos 28 anos chegou, para ficar, ao escalão máximo do futebol português, ao cabo de um trajecto com início no Viseu e Benfica, prosseguido no Académico de Viseu e na Académica de Coimbra.
CONCEPÇÃO – Aos 34 anos, João Manuel é um daqueles talentos que encontram explicação para tudo quanto se passa à volta, porque, ao contrário de outros mais valorizados, glorificados até e com futuro mais risonho – o que nem é difícil nesta altura... – entende a essência do futebol. Numa fase em que vemos cada vez mais jogadores incapazes de acabar o que iniciam, não cumprindo o que sugerem à própria equipa, João Manuel não erra, em termos conceptuais, um único movimento. Tem as ideias claras e decide sempre o melhor para a equipa; arrisca quando é preciso e é vulgar quando entende que tem de o ser; ganha espaço jogando longo e curto mas também o faz levando a bola em drible. Tal como para Wilson, o notável central do Belenenses, agora é tarde para inverter a marcha. E, assim sendo, fica apenas o registo do crime.
