O treinador do Manchester United

Adicione como fonte preferencial no Google

1. Se a um projecto autêntico estão subjacentes os conceitos de tempo e competência, os maus resultados devem subalternizar-se às boas ideias, para não desviar atenções daquilo em que acreditamos; se a sociedade de consumo convida ao lucro imediato, importará ter presente que o êxito só faz sentido com horizontes mais vastos e alicerces mais sólidos; se a vida nos ensinou que a urgência é inimiga do raciocínio, também sabemos que o fausto é um potencial gerador de comodismo. Em 1986, cansado de viver do passado, sem vitórias nem rumo, o Man. United contratou um homem em quem acreditou para elaborar um plano, montar uma estrutura, definir um rumo e apresentar resultados: Alex Ferguson. Só ao fim de quatro anos foi campeão de Inglaterra.

2. Hoje, suportado no título de Sir, é o responsável pela construção da mais luxuosa fábrica do futebol mundial. Ferguson fez do Man. United a máxima referência destes tempos em que o jogo silvestre de outrora se sente bem na pele de grande indústria; e mesmo não tendo recusado liminarmente o espectro suicida de olhar para a Bolsa como único sonho autorizado, agarrou-se à grandeza do passado glorioso e à mais profunda essência do jogo: a paixão dos adeptos. Por respeito à memória de Busby, Charlton, Best e Law, acrescentou-lhes Cantona, Schmeichel, Giggs e Beckham. Porque tem uma visão de futuro e um conceito de insatisfação permanente acaba de levar um homem para a engrenagem ganhadora: Carlos Queiroz.

3. Mas para quê e por que motivo o escolheu? Não foi para dar prestígio exterior à instituição – há uma centena de nomes mais sonantes, todos disponíveis; não foi por debilidades na política do futebol – que está definida, avançada no tempo e precisa apenas de uma gestão corrente; mas não foi, seguramente, para carregar o saco das bolas, dar aquecimento, distribuir coletes e dirigir peladinhas que Sir Alex Ferguson escolheu Queiroz. Se pensarmos que a estrutura de clube em Inglaterra passa por um "manager" que gere técnica e financeiramente e presta contas no final de cada época, talvez seja mais fácil responder à pergunta que para trás ficou.

4. Diferente da imagem transmitida por ignorância, mas também por preconceito – desvalorizar uma proeza indiscutível –, a função de Queiroz é só uma: vai ser ele o treinador do Manchester United. Terá de assimilar o projecto, entender as ideias gerais e dar-lhes seguimento na área técnica, de modo a potenciar a máquina que lhe puseram nas mãos. Ironicamente, foi ao País da sorte e do azar, do improviso e do instinto, que a mais bem sucedida instituição desportiva da actualidade encontrou a pessoa ideal para gerir aquela que é sua fonte de riqueza mais preciosa. Um homem que se impôs por estudo e saber; por reflectir sobre as coisas, teorizar sobre o jogo e os métodos; no fundo, pelo brilhantismo conceptual reconhecido no Mundo, desvalorizado em Portugal mas sempre reclamado pela geração que ajudou a criar e se aproxima cada vez mais do fim.

Deixe o seu comentário
Assinatura Digital Record Premium

Para si, toda a
informação exclusiva
sempre acessível

A primeira página do Record e o acesso ao ePaper do jornal.

Aceder

Pub

Publicidade