O tri e o futuro
O FC Porto perdeu uma peça solta da engrenagem (James) e a corrente que alimenta a sala de máquinas (João Moutinho). Já Vítor Pereira deve permanecer não por ter sido campeão mas porque depurou um modelo de jogo que identifica as grandes equipas.
1 Há uma linha de dez anos, muitos títulos e grande futebol a unir Costinha, Paulo Assunção e Fernando; Maniche, Raul Meireles e João Moutinho; Deco, Lucho, Belluschi, Guarín e El Comandante outra vez. Ao fim de três épocas no Dragão, chegou a vez de João Moutinho partir. E, apesar dos eloquentes exemplos de uma década, reveladores de definição técnica precisa e disponibilidade financeira automática, o momento requer redobrada atenção.
Se os 70 milhões de euros são uma espécie de jackpot que enchem os cofres portistas, a saída simultânea da máxima referência e do príncipe sublime do reino (James) levanta ao FC Porto o dilema habitual. Prova de que o mercado tem regras perversas, nem sempre o peso na equipa se reflete no valor do passe.
2 Perder talento nas faixas não costuma ser drama para as grandes equipas. Em zonas periféricas a qualidade é mais fácil de repor, porque esses artistas, que encantam plateias com magia instantânea, só acrescentam contribuição individual à comunidade. Sai James outro virá. Já Moutinho pertence à estirpe dos que multiplicam o valor da equipa; fazem os outros jogar mais e parecerem melhores; são perfeitos a gerir o senso comum e deslumbrantes a criar a surpresa.
Um é uma peça solta da engrenagem, o outro é a corrente que alimenta a sala de máquinas; um cria o assombro da genialidade que não se explica, o outro tem argumentos menos visíveis e reconhecidos mas domina todos os elementos do futebol como jogo coletivo. Que um valha mais 20 milhões do que o outro é daquelas coisas que não se entendem.
3 João Moutinho traz inteligência e soluções táticas a uma zona do terreno que lhe permite dar segurança atrás, equilíbrio no meio e claridade à frente. É raro o mesmo jogador ter espírito do bombeiro que vai apagando focos de incêndio por todo o terreno, autoridade de juiz no modo como dita as leis do jogo e visão de arquiteto no desenho do edifício, isto é, na forma como traça o plano futebolístico para o êxito.
Por outro lado, a interpretação que faz do papel que lhe cabe prova ser possível assumir o compromisso com a orientação do treinador combatendo a previsibilidade das ações e a submissão absoluta às ideias superiores. Cada jogador, mesmo os que funcionam como extensão do mestre em campo, devem cumprir ordens. Mas podem e às vezes devem fazê-lo defendendo pontos de vista originais.
4 Se o tricampeão parte desfalcado para 2013/14, a dúvida prende-se agora com o treinador. Mesmo que a crescente dimensão do futebol como indústria tenha elevado vitória e derrota ao exagero de vida ou morte, Vítor Pereira ganhou o direito a permanecer não só por ter sido campeão mas porque é competente; porque consolidou traços da cultura portista e depurou um modelo de jogo que identifica as grandes equipas, assente num conceito ofensivo, em que a bola é o centro nevrálgico de todas as decisões.
O título aproximou-o da família azul e branca e tornou-o alvo dos impulsos passionais dos adeptos; mas Vítor Pereira não merece o prémio de atacar o tetra só por elementos circunstanciais de análise. Se ficar por convicções reduzidas ao facto de ter sido bicampeão é melhor que vá à sua vida.
Danilo e Alex a quilómetros
Durante anos, a tendência foi preencher essa zona com jogadores a quem se pedia apenas para não cometerem erros. Seguiu-se a fase em que os treinadores viam um corredor para explorar em termos ofensivos, o que levou à adaptação massiva de extremos a defesas.
Olhando para o campeonato português, Danilo (que pode ser médio) e Alex Sandro (lateral-esquerdo de raiz) não têm concorrência. Pode ser uma coincidência. Mas a vitória do FC Porto foi também a da equipa que, a distância quase escandalosa, tem os melhores laterais em Portugal.
Mangala terá nível mundial
Mangala é um central espetacular, com argumentos físicos notáveis, insuperável no jogo aéreo. Colocado perante situações que exigem resolução com base no despique individual direto é de uma eficácia tremenda. Melhorou muito de uma época para a outra mas ainda lhe falta aperfeiçoar o entendimento global do que acontece no seu raio de ação.
Mesmo sendo cada vez menos, ainda comete erros de decisão. Tem de saber quando deve ir ou ficar; atacar a bola e o adversário ou defender o espaço. Já está referenciado na Europa. Quando concluir a formação poderá ser uma referência mundial.
Jackson assumiu peso da herança
Jackson assumiu a herança de Jardel, Pena e Falcão; em vez de temer comparações, pedir tempo de adaptação e solicitar tréguas aos adeptos, fez logo o que sabe: jogar futebol e marcar golos. Simples. O colombiano entra na lenda do tri vestindo a pele de melhor marcador da equipa e da Liga, como titular quase absoluto.
Pela preponderância na equipa, pelo futebol que demonstrou e pelos golos decisivos que foi marcando não merecia associar o nome à época como protagonista de três penáltis falhados: um “à Panenka”, frente ao Olhanense, e outros a Marítimo e Rio Ave.
