O valor do golo
PONTARIA – Não existem grandes equipas no futebol, esses fenómenos colectivos cada vez mais raros que juntam o colorido do belo jogo e as marcas das grandes vitórias, se não tiverem alguém que lhes dê pontaria. Ao longo dos tempos, Portugal cometeu até o exagero de reduzir ciclos dominadores a atiradores de época: Fernando Peyroteo (Sporting dos anos 30/40); José Águas e Eusébio (Benfica dos anos 60/70); Fernando Gomes e Jardel (FC Porto dos anos 80/90). Parece linear mas não é, porque nem sempre golo e espectáculo andaram de braço dado, em suma, porque as vitórias sem a magia das coisas eternas depressa entram no baú do esquecimento.
O TEMPO – Se ainda hoje ouvimos falar da Hungria de Puskas (1954) como modelo de exuberância e inovação; se a Holanda de Cruyff (1974) parece que nunca deixou de existir; se o Brasil de Zico (1982) é a memória mais próxima da perfeição, então é porque o jogo, no mínimo, continua a ser tão importante como o objectivo aparentemente definitivo que é o golo e, por consequência, a vitória. Se nenhuma destas selecções foi campeã do Mundo e ainda hoje falamos delas como se pertencessem à família, é porque sobreviveram ao tempo e ultrapassaram a aparente escassez de glória para o talento e a genialidade que as suportava.
RISCO – Há momentos em que o exagero é um risco inevitável. No início da época, o Benfica operou uma revolução no plantel e escolheu bem em duas vertentes: nos jogadores para lhe dar forma (opções criteriosas) e no momento de a levar a cabo (vinha da pior época de sempre). Apesar do interminável contingente de nomes sonantes, foi automática a escolha de Pedro Mantorras como rosto emblemático da nova era. Compreende-se que assim tenha sido, porque cumpria um por um todos os requisitos exigidos: trazia juventude, talento, espectáculo, explosão e magia; alimentava a esperança e em último caso era a promessa de negócio de milhões.
GOLOS – O fenómeno Mantorras desfocou algumas evidências relacionadas com a integração na equipa, levantando questões que os adeptos nem queriam ouvir. As suas características obrigariam a mudar o estilo de jogo – toda a gente adivinhava uma coisa dessas; obrigava a um conceito novo para o ataque benfiquista – se é só isso, mais valia ficarem calados; se era melhor assim (?) – desculpem, mas não temos tempo para perguntas estúpidas. Ficou apenas por esclarecer a dúvida mais pertinente e na altura insignificante face a tão grande loucura: seria Mantorras capaz de aproximar-se de Van Hooijdonk e João Tomás em tentos apontados por época?
LIMITE – O arranque foi espectacular e excedeu as melhores expectativas, sobretudo porque introduziu golo num repertório cada vez mais seguro e demolidor. Na sequência de pré-época com contabilidade muito acima da média habitual, Mantorras chega a 11ª jornada com dez presenças, marcando cinco golos repartidos por três jogos. Não permitir que o futebol se reduza a números é uma obrigação dos grandes jogadores que ele respeita integralmente. Só não deve exagerar. Não precisa de ser Jardel, porque esse é o fenómeno inverso, mas tem de perceber que há um número abaixo do qual um ponta-de-lança, por muito que jogue, não pode descer.
