O velho talento do novo mestre
1. Se o futebol oscila entre a expressão de arte e a gestão de conflitos, as grandes equipas são aquelas que melhor dominam as emoções e mais argumentos acumulam para responder às exigências. José Peseiro, resistente ao atraso que pareceu irremediável (nove pontos) e à polémica interna que ameaçou fazer sangue, atravessou o deserto orientado pela convicção de que estava no caminho certo. Apesar de interrupções inexplicáveis (Coimbra é um bom exemplo), quando faz do jogo uma festa o Sporting desenvolve um futebol associado e espectacular, feito de combinações cada vez mais participadas e seguras. Liedson contribui com golos e profundidade ofensiva; Custódio dá estabilidade processual; Hugo Viana é o elo de ligação entre as pontas dispersas.
2. Conhece os fundamentos do jogo e os segredos da sua essência colectiva, razão pela qual não se orienta apenas pelo instinto nem se faz notar só pela magia instantânea. Quando vai para dentro de campo, Hugo Viana leva o catálogo de soluções para cada momento, seguro de que a esmagadora maioria dos problemas deve ser resolvida em conjunto e não com medidas avulsas. Quando afirmou que Makelele tinha melhores argumentos do que Ronaldo, Menotti usou apenas um exemplo exagerado para explicar que algumas das maiores estrelas da actualidade reduzem a imensa complexidade do jogo ao grau de eficácia das suas próprias acções. E o bom futebol não se reduz ao virtuosismo de cada um mas ao amplo processo de harmonização de características distintas.
3. Hugo Viana assenta na capacidade técnica extraordinária e na escolha correcta da alternativa para dar seguimento à manobra. A força esmagadora da sua intervenção é o talento para avaliar equilíbrios, medir vulnerabilidades e antecipar o perigo. Por conhecer aquilo que o futebol tem de xadrez, quando entra em contacto com a bola já está a pensar cinco toques à frente; por dominar noções básicas de estratégia, privilegia a ordem sem a qual não se ganham batalhas, por mais brilhantes e corajosos que sejam os soldados. Tendo nascido futebolista, acrescenta os méritos adquiridos de excelente observador, que sabe analisar, concluir e executar. É o fiel depositário do plano definido pelo treinador. Muito poucos estão preparados para assumir essa responsabilidade.
4. A cabeça levantada reclama a origem do processo criativo (tudo começa no cérebro), embora desvie atenções das aulas práticas (dadas com os pés). Aos 21 anos, Hugo Viana representa o fenómeno precoce de um mestre na velha arte de gerir o espaço e marcar os tempos; da distribuição criteriosa e do modo como trava e acelera o andamento da máquina. À sua volta cresceu uma equipa na qual, ultrapassado o troço mais difícil da época, todos começam a saber com antecedência o que vai acontecer. Enquadrado por mais ou menos inspiração individual, o Sporting revela a estrutura mais sólida, a ideia mais firme e os mecanismos de funcionamento mais eficazes entre os grandes. A manter-se o cenário actual, e a seis meses do fim da SuperLiga, é o mais forte candidato ao título.
O que o futebol deve ao Barcelona
O Barcelona de Frank Rijkaard é a mais fascinante equipa do futebol europeu da actualidade e, simultaneamente, aquela que tem mais lições para nos dar: 1) Não é preciso ter grande presença na área para marcar muitos golos; 2) A eficácia não está dependente do ponta-de-lança tipo armário que muitos ainda hoje reclamam; 3) Essa história das incompatibilidades é uma farsa, desde que as funções estejam bem atribuídas e melhor assimiladas - de tal maneira que Ronaldinho Gaúcho e Deco até parece que foram feitos para jogar um com outro.
O que o rapaz já aprendeu...
Se as conquistas linguísticas de um estrangeiro começam nos palavrões, é natural que as primeiras lições lhe dêem para a asneira. Com o Estoril, Karadas ensaiou a arte dramática e voou como se o tivessem projectado pelos ares. O resultado foi ridículo, mas o juiz decidiu que o rapaz tem jeito. É preciso ser muito ingénuo para ir naquela conversa tão mal amanhada.
Da glória ao balneário numa semana
Usando a mesma habilidade burlona com a qual arrancou "penalty" no Restelo, Wender viu o cartão amarelo com o Penafiel. Porque a sua magia não diferencia o que é e não é legítimo, ainda tentou marcar um golo com a mão. Resultado: terminou mal a viagem que o levou da glória ao balneário no intervalo de uma semana. Não se esqueçam, senhores jogadores, de que os árbitros também vêem televisão...
O campeão puxou dos galões
Num momento de dificuldade extrema para o seu futuro europeu, o FC Porto foi ao fundo de si mesmo e ganhou ao Chelsea. No aguardado regresso de Luís Fabiano, Diego lançou a obra que McCarthy concluiu, a passe magistral de Ricardo Quaresma (prova de que também há suplentes por excesso de qualidade). Nada que surpreenda face à carreira da equipa e aos jogadores que, no meio de instabilidade e alguma incoerência, melhor rendimento têm apresentado.
