Opinião

Daniel Sá Diretor Executivo do IPAM

O xadrez aprendeu a fazer barulho

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Durante séculos, o xadrez foi jogado em silêncio. Hoje, esse silêncio vale milhões.

 A Salesforce acaba de se tornar o patrocinador principal dos Campeonatos do Mundo de 2026 e 2028 e parceiro oficial de inteligência artificial da Federação Internacional da modalidade. O acordo inclui ainda o Mundial feminino de 2027 e os rankings mundiais, que passarão a integrar o nome da empresa tecnológica. O valor financeiro não foi divulgado, mas a parceria foi apresentada como a maior da história comercial da modalidade. O xadrez não ganhou uma nova regra. Ganhou reconhecimento empresarial.

 A escolha não é tão surpreendente como parece. A FIDE agrega 204 federações nacionais, 1,5 milhões de jogadores classificados e dezenas de milhares de eventos anuais em 195 países. A organização estima que o xadrez alcance mais de 800 milhões de pessoas em todo o mundo. Números que ajudam a perceber por que razão uma das maiores empresas tecnológicas globais decidiu associar-se a um jogo inventado muito antes da eletricidade.

 Mas a verdadeira transformação está no digital. Em fevereiro de 2026, a Chess.com atingiu 250 milhões de membros, depois de ter ultrapassado os 100 milhões apenas em dezembro de 2022. Em pouco mais de três anos, acrescentou 150 milhões de contas. A plataforma refere uma média próxima de 12 milhões de novos membros por ano e mostra atualmente mais de 277 milhões de utilizadores registados. Já não estamos perante uma comunidade de nicho. Estamos perante uma plataforma global de entretenimento.

 Em Portugal, a dimensão é naturalmente menor. A Federação Portuguesa de Xadrez apresenta cerca de 4.000 atletas federados e mais de 100 clubes. O país receberá ainda, em dezembro, os Campeonatos Europeus de rápidas e blitz, em Portimão. A escala federada permanece modesta, mas existe uma oportunidade evidente: converter a enorme prática digital numa relação mais próxima com clubes, escolas, torneios e marcas.

 O xadrez conseguiu aquilo que muitas modalidades procuram sem sucesso. Tornou-se digital sem deixar de ser autêntico. Uma partida pode durar horas ou poucos minutos. Pode ser acompanhada num palco, jogada num telemóvel ou comentada em direto por criadores de conteúdo. O mesmo produto adaptou-se a diferentes idades, geografias e disponibilidades, sem alterar a sua essência.

 Foi essa flexibilidade que conquistou uma nova geração. O xadrez transformou jogadores em criadores, partidas em conteúdos e movimentos em histórias. Entrou no streaming, nos documentários e nos esports. Em 2025, estreou-se no Esports World Cup, com um prémio de 250 mil dólares para o vencedor. Em vez de competir contra a cultura digital, tornou-se parte dela.

 A parceria com a Salesforce leva esta evolução mais longe. A inteligência artificial será utilizada para atualizar rankings, analisar movimentos, responder a perguntas dos adeptos em diferentes idiomas e melhorar a gestão das competições. A tecnologia não aparece como mera decoração comercial. Entra no próprio funcionamento do produto e na experiência de uma página que recebe 1,2 milhões de visitantes mensais.

 Esta é uma lição importante para toda a indústria do desporto. Muitas organizações continuam a usar a tecnologia para comunicar o mesmo produto através de novos canais. O xadrez fez o contrário: utilizou os novos canais para transformar a forma de jogar, aprender, competir, acompanhar e pertencer.

 Durante anos, os patrocinadores procuraram sobretudo modalidades que garantissem exposição televisiva. Agora procuram comunidades digitais, dados, participação, conhecimento do consumidor e capacidade de interação constante. O xadrez oferece tudo isso num ambiente internacional, educativo, tecnológico e facilmente acessível.

 O tabuleiro continua a ter 64 casas. As peças continuam a mover-se da mesma forma. O que mudou foi tudo o que existe à volta.

 O xadrez não aprendeu apenas a fazer barulho. Aprendeu a transformar atenção em valor. E, no desporto moderno, essa é provavelmente a jogada mais importante de todas.

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