Ola John é puzzle incompleto
1 - Um futebolista não pode permitir que lhe mutilem o instinto ou danifiquem a inspiração, da mesma forma que deve evitar tornar-se escravo de ideias repressivas que lhe limitem a liberdade criativa. Não se trata de promover a insubordinação tática, de valorizar o belo para lá do bom senso ou promover a anarquia em contraponto com o funcionamento mecânico da fábrica. Trata-se, apenas, de considerar que todo o talento precisa de ser completado com trabalho, disponibilidade para aprender e enquadramento com o meio, na certeza de que a generosidade da natureza não é suficiente para chegar ao céu. Todos os jogadores devem seguir a orientação dos seus treinadores, desde que reconheçam neles a capacidade para potenciar qualidades escondidas e dar-lhes um vasto horizonte de soluções ilimitadas.
2 - Ola John transporta o futebol para a pureza da rua, para os finais de tarde em que o bairro se agitava para ver os meninos jogar com as armas que traziam do berço. Nesse tempo distante era possível ser feliz só com as habilidades que encantavam a vizinhança: as fintas esquisitas, os truques personalizados e todo o deslumbramento provocado por decisões individuais que não precisavam de contextualização com o coletivo. Nesses anos em que a habilidade prestigiava e construía heróis locais, ser bom não dependia de saber jogar futebol mas da mais intensa relação de amor mantida com a bola. A história centenária do jogo tem servido para mostrar que muitos desses milagres genéticos se atrasam na viagem para a maturidade profissional. Muitos perdem-se mesmo pelo caminho.
3 - Ninguém duvida de que Ola John tem génio para fazer o que a maioria nem sequer admite como hipótese. Para tirar proveito máximo desse dom que leva de vantagem, está obrigado a fazer tudo para adaptar competências à natureza coletiva do jogo. De pouco lhe servirá a magia se não despertar os sentidos para o Mundo onde vive. Não pode é desfasar-se de forma tão evidente da orquestra, como solista que, por desconcentração e entusiasmo juvenil, esquece a pauta e, em vez de cumprir o papel no concerto, se revela indiferente à harmonia para a qual está obrigado a contribuir. Em Alvalade, foi um fantasma que passou largos minutos a tentar, a ser desarmado e a não reagir. É insuportável para qualquer equipa ter uma peça solta na engrenagem que conceda a si própria o privilégio de não pensar no bem comum.
4 - Esse comportamento imaturo não reflete os malefícios da atitude egoísta mas a inocência de quem não mediu totalmente a responsabilidade adjacente ao símbolo que leva ao peito; não corresponde à perversidade de quem só pretende brilhar isoladamente mas à ausência de compromisso com a causa de que os adeptos são os fiéis depositários. Ola John nunca educou a visão que o torna indiferente a situações de apuro coletivo; que o faz levitar e aterrar noutro planeta quando a nau em que viaja se aproxima das tormentas de uma tempestade gigantesca. Aos 22 anos, vai ter de captar o que separa o puro-sangue indomável de um cavalo de corrida em Ascot; a boa voz de um tenor do Scala de Milão; o saber dançar de um bailarino do Bolshoi. Como potencial fenómeno, está proibido de alimentar por mais tempo a imagem de jogador limitado, inconsequente e pouco fiável. Se não der o passo seguinte, mais do que uma desilusão, será um desperdício escandaloso.
Quatro estrelas do dérbi eterno
Do duelo em Alvalade resultaram conclusões surpreendentes e quatro estrelas inesperadas
Jefferson, que vira o carro vandalizado por benfiquistas, marcou o golo do Sporting; Jardel, eterno mal-amado dos encarnados, fez o empate no fim do jogo; Artur, massacrado durante a semana, como se a baliza da águia fosse entregue a um vendedor de queijadas, teve atuação irrepreensível; Jorge de Sousa aproveitou as condições favoráveis (clima de paz entre os dirigentes, colaboração dos jogadores…) e afastou-se de protagonismos habitualmente nocivos - é o melhor árbitro português da atualidade.
As conquistas de Lito Vidigal
Se há equipas da Liga cujo total excede a soma das partes, o Belenenses é uma delas
Lito Vidigal está a fazer trabalho excecional, transformando uma formação concebida para lutar pela permanência no sexto classificado. Estranho é sentir que, apesar de tudo, continua a trabalhar em esforço e a remar contra a maré de adversários lógicos (os de fora) mas também incompreensíveis (alguns de dentro). Num clube que tem sido um imenso cemitério de treinadores, devolveu o Belenenses à primeira metade da tabela (os 30 pontos já lá cantam) e cometeu a proeza de valorizar quase todos os jogadores do plantel. Desde Jorge Jesus que o Restelo não tinha um míster assim.
Arte de Herrera é fazer tudo bem
Em Moreira de Cónegos, foram dele os passes para os golos de Jackson Martínez e Casemiro
Herrera é daqueles jogadores que, fazendo tudo bem, raramente é apanhado pelos holofotes. Para ser protagonista precisa de eficácia junto à baliza, de lances que passam repetidamente nos resumos televisivos, prova de que é um jogador irreverente com as leis do mercado - os ilusionismos valem mais do que a arte de manter a equipa em permanente ação. O mexicano defende e ataca; é decisivo quando vai para a frente saindo de trás e quando recua oriundo de paragens mais adiantadas. Pode não parecer, mas é um dos jogadores mais valiosos da Liga.
