Onde já vai o espectáculo

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1. Jorge Valdano reconhece um ponto comum entre quem triunfa: “Jogam os melhores, nas funções que dominam, no espaço onde se sentem mais confortáveis.” Numa equipa de topo, como o FC Porto, não é preciso inventar nem correr riscos, basta gerir o plantel criteriosamente e estabelecer um ponto de encontro entre as ideias do treinador e as potencialidades da equipa. Por trás daquele rosto blindado, Co Adriaanse guarda sementes de um enigma, traduzido na febre de decisões incompreensíveis, acompanhadas por lampejos de lucidez cada vez mais raros. No último jogo, sem Lucho e McCarthy, ainda substituiu Quaresma e Lisandro; não é a mediocridade comum a treinadores medrosos de tirar os bons para que corram os maus; é achar que entre uns e outros não há diferenças desde que todos entendam as suas ideias. Um disparate, salvo melhor opinião.

2. Num plano mais global, cabe ao treinador definir as funções de todos os jogadores, sustentar com critério a participação de cada um no jogo e estimular a articulação perfeita entre os seus movimentos. Cada elemento não pode ter dúvidas quanto à relação que vai manter com os companheiros, que margem de estabilidade lhe é concedida em campo e como deve levar a cabo os processos de entreajuda. Não chega dizer que o objectivo é ter a bola e jogar ao ataque; ir pelas faixas e povoar a área; esperar por apoios vindos de trás e procurar o golo com muita gente que se atropela. A táctica é um plano que serve para apoiar o talento numa base sólida, para que os melhores se expressem com mais segurança e os menos bons se defendam das debilidades. É também para criar laços de cumplicidade e segurança que serve o treino.

3. Interpretada como anúncio do apocalipse, a derrota na Amadora pôs em causa a estrutura e serviu para redefinir todo um modo de vida. Co Adriaanse fugiu para a frente, como se estivesse no fio da navalha, em busca de uma derradeira hipótese de salvação – incompreensível para quem lidera a Liga, agora com 4 pontos de avanço. Mudar para um sistema com três defesas (e só um central) à entrada para a 2.ª volta é uma perfeita inconsciência, sobretudo pela escassez de mecanismos colectivos que dêem resposta satisfatória a tão drástica alteração. Com o Rio Ave, o FC Porto atacou de princípio a fim, mas fê-lo com movimentos pouco estudados; recorreu a juventude e inexperiência excessivas para lutar contra o tempo e, como se tornou previsível ao longo da noite, não fez um golo sequer. Veremos, frente ao Sp. Braga, se a expedição para o abismo prossegue ou é interrompida.

4. Co Adriaanse criou uma ilusão de espectáculo, assente no bom gosto, no atrevimento, na convicção de que a bola é o centro do jogo. A ideia é generosa e corresponde à dimensão de um clube como o FC Porto; mas não pode ser um fim em si mesma, porque o futebol continua a pertencer mais aos pés dos jogadores do que à cabeça dos treinadores; mais à inspiração de quem decide em campo do que ao plano concebido por quem comanda de fora. O holandês pode até tirar conclusões enevoadas e pensar que o zero em Vila do Conde se deveu à falta de sorte. Mas quando aposta, ao mesmo tempo, em Alan, Adriano, Hugo Almeida e Ivanildo, tendo Raul Meireles como principal referência de equilíbrio, é preciso ter a noção de que, mantendo pressupostos de ataque, está a utilizar fisgas em vez de artilharia pesada. E mais vos digo: da equipa que terminou o assalto frustrado ao castelo do Rio Ave, só Diego (e talvez Paulo Assunção) tem potencial para integrar um qualquer exército de elite.

Flanco direito

A CABEÇADA DE JOÃO TOMÁS. A bola saiu com força, efeito e precisão incríveis dos pés de Rossato – e deu vontade de aplaudir logo o cruzamento. Quando chegou a João Tomás deu para respirar fundo e esboçar o sorriso de quem viu confirmada a ideia segundo a qual o jogo se faz de especialistas – a cabeçada foi perfeita, com colocação inatingível para Nilson. O golo foi espectacular. Ambos mereciam o abraço de quem gosta de futebol.

O REGRESSO DE RUI JORGE. Por falar em especialistas, Rui Jorge regressou à competição. A excelente notícia foi dimensionada pela vitória do Belenenses (5-0) e por duas assistências para golo. No fim, afirmou que está ali para ajudar e não para ser o salvador da pátria azul. Como de costume, tem razão no que diz e foi certeiro no diagnóstico. Acrescento apenas que, mesmo sem estar a 100%, é um dos melhores laterais-esquerdos da Liga portuguesa.

O TEMPO NÃO PASSOU POR ELE. Sá Pinto mantém peso representativo no Sporting. O tempo deu-lhe ainda mais importância, porque ao estilo acrescentou a força da maturidade numa equipa cada vez mais jovem. Podemos discutir exageros ou tipos de intervenção mais irreverentes – podemos discuti-lo, afinal, com os mesmos argumentos de sempre. Mas, fazendo-o, estamos também obrigados a elogiá-lo pelas qualidades técnicas e físicas que mantém intactas aos 33 anos. O que é simplesmente extraordinário.

Uma grande prova de coragem

Pedro Henriques confirmou por que motivo é pouco apreciado por conservadores, puristas e medíocres – no dérbi teve a coragem de assumir riscos na defesa do espectador. Porque tem mãos para aguentar o vertiginoso galope dos acontecimentos, resistiu à efervescência e impôs-se deixando jogar. Tudo ao contrário daqueles que montam a tenda no círculo central, evitam que a bola chegue às áreas e, mesmo apitando muito, não tomam decisões. Quer dizer: matam o espectáculo, salvam a pele e ainda são premiados por quem lhes trata da carreira.

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