Os abutres
Manchete de terça-feira do “Correio da Manhã”: a Judiciária está a investigar alegadas “luvas” pagas nas transferências de jogadores. É uma certidão do caso Apito Dourado, em que se procura saber a titularidade de contas sediadas “offshore” por onde o dinheiro terá circulado.
O futebol, como negócio, desafia a racionalidade económica. Porque ele é basicamente inviável. Olhe-se para os grandes clubes europeus, que pagam salários arrepiantes aos seus jogadores, que movimentam multidões, e veja-se quantos são viáveis. Quase nenhum. De forma sustentada, ou seja, com lucros equilibrados e continuados, os casos de sucesso são os clubes alemães, que, por sinal, são os menos loucos a contratar e a pagar “estrelas”. De resto, da Espanha a Itália, passando por Inglaterra, os clubes de futebol parecem inviáveis, estão sempre no prejuízo. E no entanto…
E no entanto, não mudam os seus modelos de negócio, baseados em contratações milionárias e expectativas de receitas que só os campeões recebem, deixando no prejuízo dezenas de equipas “número dois”. O que justifica esta loucura? Justifica o facto de haver muito dinheiro transacionado nas comissões, entre os intermediários das grandes transações. Esses são os grandes beneficiários da loucura do futebol. São aqueles a quem Filomena Pinto da Costa chamou de “abutres que se estão a aproveitar”. Falava do Porto. Mas podia estar falar de qualquer clube. E estamos na época deles: o chamado defeso.
A transparência é um bem escasso nas empresas. E é-o ainda mais no futebol. Os salários dos jogadores, o valor dos passes, as transações deviam ser regulados e públicos. Não é só pelos impostos que não são pagos, à margem da lei. Nem pelo enriquecimento seletivo de quem faz os negócios. É pelos clubes: estão a extorqui-los. E podem matá-los.
