Os conhecimentos de Camacho
1. Quando Marco van Basten foi contratado pelo Milan (1987) e lhe perguntaram se conhecia Gianni Rivera, símbolo do clube, maestro da vitória na Taça dos Campeões em 1963, eterno "bambino d'oro" do futebol italiano, melhor jogador da Europa em 1969, a resposta teve o efeito de um terramoto com epicentro na indignação colectiva: "Não o conheço e nunca ouvi falar dele." O melhor ponta-de-lança do Mundo dos últimos anos utilizou a rudeza que sempre o caracterizou fora dos estádios e a imprudência só não teve consequências maiores porque era, ele próprio, a imagem de um novo ciclo; a personificação da esperança; a promessa de golos, magia e glória. O conhecimento básico da história das grandes instituições e da sua cultura é fundamental para quem as vai servir. O momento solene do compromisso pode seguir o guião da banalidade ou ter os excessos dos grandes momentos, mas jamais deve criar um clima de hostilidade. Sobretudo porque nem todos os recém-chegados são van Basten.
2. José Antonio Camacho entrou na Luz suportado em nome, prestígio e competência. O seu romance com o futebol tem as marcas da paixão pelo Real Madrid, razão pela qual acedeu depressa aos contornos da periclitante realidade encarnada. Ainda mal conhecia os jogadores e já estabelecera novas regras para o grupo, algumas das quais em clara rota de colisão com as vigentes até à sua chegada. Isto é, antes de definir ideias técnicas e tácticas; da correcta avaliação do plantel; muito antes de pensar em reforços ou dispensas, tratou de arrumar a casa à sua maneira, com autonomia, agindo como quem conhece os dramas de aristocratas em crise. Camacho deu prioridade à estabilidade emocional de todos quantos trabalham no palácio, para que se sintam bem, confiem uns nos outros e superem, juntos, todos os obstáculos. E deu-lhes liberdade de expressão, esse bem sagrado que o futebol português se habituou a reprimir descaradamente, sinal de que o 25 de Abril de 1974 já foi há muitos anos.
3. Por detrás do rosto fechado e da repressão ao sorriso, encontra-se um discurso firme e cristalino. Ao contrário de van Basten, para manter o exemplo inicial, Camacho entrou bem no novo clube: soube avaliar a situação e evitou a excessiva dependência de quem lhe está acima na hierarquia – não é o treinador do presidente "x", ao contrário da fatalidade dos seus antecessores, Souness, Heynckes, Toni e Jesualdo. Não sei se alguém se recorda da palavra mística – onde é que ela já vai... Embora continue a integrar o dicionário do futebol português e do Benfica em particular, caiu em desuso, talvez até no esquecimento. Se pensarmos que mística pode ser a cumplicidade entre jogadores e treinador, união que aproxima a ideia institucional do presidente e as necessidades do adepto; se a olharmos como um valor que nasce, cresce e se transmite no núcleo restrito que é a cabina; se atingirmos que a sua raiz é a dificuldade, começamos a perceber o que Camacho persegue.
4. O Real Madrid de Di Stéfano, o Brasil de Pelé (sobretudo o de 1970), o Ajax de Michels e Kovacs ou o Barcelona de Cruijff, por exemplo, não precisaram de valorizar excessivamente as emoções para serem fenómenos grandiosos e inesquecíveis – o mesmo se passou, à escala nacional, com o Sporting dos violinos, o Benfica de Eusébio e o FC Porto de Gomes. Porque ao conceito de mística está subjacente o de superação; porque o seu ponto de partida é criar laços fortes e duradouros que facilitem a aceitação de ideias e o entendimento de todos os deveres colectivos; porque o mercado serve para fortalecer um corpo já formado mas também pode danificá-lo se o recurso for excessivo, Camacho criou uma espécie de Constituição para o balneário do Benfica, a primeira em muitos anos a ser aprovada por unanimidade e aclamação. Por independência e estatuto intocáveis, foi mais longe que os antecessores, partindo do princípio que equipas em crise só são governáveis com uma base mínima de responsabilidade, cumplicidade, cooperação e respeito.
