Os desafios de Kelvin
Autor de um momento eterno, que ficará sempre na memória de todos os portistas (e benfiquistas), Kelvin ainda não conseguiu dar o passo seguinte na sua afirmação de dragão ao peito. Trata-se de um diamante semi-lapidado, que estagnou a evolução. A sua cedência ao Palmeiras acaba por ser uma decisão natural, em função da juventude e do potencial de crescimento que ainda pode atingir.
Com apenas um pontapé, no célebre golo do minuto 90’+2, Kelvin garantiu um lugar na história do FC Porto. Visto à posteriori, percebe-se que o jogador, ainda em fase de aprendizagem e crescimento, sentiu o peso dessa responsabilidade e não conseguiu acrescentar novos capítulos e episódios memoráveis. Arrisco mesmo em dizer que poderá ter existido um certo deslumbramento do atleta (ainda muito jovem), em função da gigantesca e decisiva façanha que protagonizou, que lhe terá travado uma progressão mais rápida.
Como nenhum dos treinadores que o orientaram (Vítor Pereira, Paulo Fonseca, Luís Castro e Julen Lopetegui) lhe deram a titularidade e nem sequer um lugar no banco, podemos concluir que o jogador ainda não estava preparado para tal. Dotado de uma enorme habilidade, boa técnica e profundidade em campo, é inegável que o seu talento o pode levar a altos voos. No entanto, ainda havia questões importantes a corrigir: o excessivo individualismo, a frágil compleição física e a falta de inteligência tática no preenchimento de espaços com e sem bola.
E sem espaço para jogar, acabou por não ter o crescimento previsto, pelo que o seu empréstimo foi natural. Kelvin tem agora um enorme desafio pela frente: são raros os jogadores que o FC Porto emprestou a clubes brasileiros que depois regressaram ao clube. Mas o talento do jogador obriga a que a SAD e os adeptos continuem a acreditar nele. É precisamente isso que indicia a sua renovação de contrato até 2018. O potencial é enorme e só lhe resta recuperar o tempo perdido.
A recuperação e valorização do jogador passa a ser um objetivo prioritário para que Kelvin possa adicionar páginas de histórias ainda mais memoráveis à sua carreira. Será o Palmeiras o clube certo para isso possa acontecer? Seria preferível que o jogador continuasse no futebol europeu, onde o conhecimento técnico-tático é maior. No entanto, de regresso ao seu país, Kelvin poderá encontrar o habitat certo para explodir e mostrar o que vale, tornando-se mais consistente e intenso, ganhando finalmente a maturidade para se impor num clube exigente como o FC Porto. Mas para isso, terá de jogar. Caso contrário, seria um passo em falso.
O minuto 90’+2 é história e peça de museu. Kelvin pode ser mais do que isso e tem condições para voltar a aquecer novamente o coração de todos os portistas. Com 21 anos, tem ainda uma enorme carreira pela frente, de preferência, com azul e branco na camisola. É o próprio jogador que tem de dar resposta ao desafio, ganhar força anímica e superar a sua produtividade.
Formação também passa por aqui. Ter a noção da necessidade de fazer crescer e reabilitar os jovens futebolistas encontrando espaço onde possam jogar e acumular maturidade competitiva. Muitos atletas com sucesso na história do FC Porto passaram antes por períodos de empréstimos decisivos para a sua afirmação. Fernando Couto, Jorge Costa, Sérgio Conceição, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Fernando foram exemplos disso. Resta esperar que Kelvin consiga ser um novo caso de sucesso.
O Craque – Pontaria afinada
Nem sequer é, neste momento, um dos 11 jogadores mais utilizados por Jorge Jesus na presente temporada, mas é o melhor marcador do Benfica. Com 12 golos em 14 partidas disputadas (3 como suplente utilizado), Jonas apresenta uma impressionante média de 0,86 golos por jogo. O avançado brasileiro está a demonstrar todo o seu faro de golo nas oportunidades que vai tendo. Um jogador versátil, que joga bem de pés e cabeça, e que tem bom poder de desmarcação. Poderá ser uma peça muito importante para as águias na segunda volta do campeonato.
A Jogada – O país do sol nascente
O futebol japonês registou um enorme crescimento nas últimas décadas. É um mercado ainda relativamente barato e capaz de fornecer jogadores com potencial e qualidade para as equipas europeias. Os clubes alemães são quem melhor está a aproveitar este filão, com mais de 10 internacionais nipónicos a alinharem hoje na liga germânica. Mas Itália e Inglaterra também começam a apostar em atletas deste país. Apesar das normais dificuldades de adaptação a um país e cultura diferentes, a afirmação de Tanaka no Sporting acaba por confirmar esta tendência. Se forem bons jogadores, que venham mais Tanakas.
A Dúvida – As variáveis do sucesso
Na análise da performance de uma equipa de alta competição, todos os pormenores contam. A interpretação de dados estatísticos é uma das variáveis. Daí que tenha sido interessante ouvir o especialista dinamarquês Rasmus Ankersen, que esteve em Portugal e num estudo sobre a liga portuguesa considerou o FC Porto a equipa com melhor desempenho. Se é verdade que o futebol praticado até aqui pelo Benfica não justifica a atual distância pontual, também se vê que os números não chegam. É preciso trabalho, talento e alguma estrelinha da sorte no jogo e nas arbitragens. O que é determinante para o sucesso?
