Os golos como lição de vida

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1Transporta o ar distante e silencioso de quem vive sem pressa e aborda o Mundo com o espírito solitário dos aventureiros por conta própria; a expressão fechada, na qual o sorriso é presença pouco assídua, sugere excesso de timidez, talvez até aquela tristeza natural que simplesmente existe e não se explica; o primeiro impacto não é agradável, mas nunca a sua figura suscita o incómodo da antipatia – pelo contrário, faz apelo instintivo a uma relação de afecto quase incompreensível. Afinal, Paulo Alves é a memória viva do infortúnio e da dor sem limites; do sofrimento inimaginável e da esperança que chegou a não fazer sentido; da incerteza que a ciência alimentou e da grandiosa vitória sobre o destino cruel. Paulo Alves é muito mais que um sobrevivente do drama: é o protagonista de uma história de paixão pelo futebol, transformada num fantástico romance com a vida. É, por isso, um exemplo definitivo e inesquecível.

2 No tempo em que o sonho fazia ainda mais sentido, concentrou toda a ilusão em Riade e no Mundial de sub-19. No Verão de 1988, a poucos meses de pisar o grande palco, destruiu o joelho esquerdo. A perna desarticulou-se por completo – ainda hoje os especialistas consideram ser a mais grave lesão de que há conhecimento no desporto. Rompidos todos os ligamentos e com os meniscos a necessitarem de correcção – o joelho ficou preso apenas pelos tendões –, o diagnóstico pós-operatório não foi animador: a medicina não assegurava o futuro da carreira. À violência sobre-humana da dor, cujas consequências ainda hoje permanecem na recordação de quem viveu o momento fatal daquele treino nas Antas, acrescentou disponibilidade para sofrer ainda mais; para se entregar a todos os sacrifícios; para contrariar a lógica e não ver morrer prematuramente a ambição de ser jogador de futebol.

3 Pelo caminho encontrou rosto para a esperança e toda a competência nas mãos de um amigo para o resto dos seus dias: Rodolfo Moura, com quem viveu o tempo seguinte à operação – excepcional obra do falecido dr. Espargueira Mendes – e repartiu todas as lágrimas, principalmente as da felicidade suprema, por ter voltado aos relvados cinco meses e meio depois do desastre. Esteve em Riade, foi decisivo e de lá regressou campeão do Mundo. Estava lançada a carreira de um dos melhores avançados portugueses dos anos 90, ponta-de-lança de referência no período de transição entre o fim de Rui Águas e o surgimento de Pauleta e Nuno Gomes – fase vivida ao lado de Domingos e Cadete. Para trás deixou rasto com mais de cem golos repartidos pela I e II Ligas; pelo Bastia (França); por jogos europeus ao serviço do Sporting e pelas treze presenças na selecção nacional que lhe renderam a bonita soma de sete golos.

4 Hoje, a poucos dias de completar 33 anos (nasceu a 10 de Dezembro, em Vila Real), é uma das maiores figuras do Gil Vicente, a equipa sensação da SuperLiga que interrompeu na Luz a impressionante sequência de cinco vitórias consecutivas. Paulo Alves precisa de cada vez menos tempo para marcar golos, prova de que aproveitou a entrada na veterania para refinar a precisão dos gestos; é cada vez mais perigoso, prova de que cimentou estatuto e aperfeiçoou os movimentos que o tornam mortífero; tornou-se até um jogador mais amplo, cuja participação no colectivo não se circunscreve ao espaço geográfico da grande área. Porque tem bom jogo de cabeça e o instinto dos avançados a sério; porque nunca perde sentido de orientação, mesmo quando entra com o comboio em andamento; em suma, porque é um futebolista de corpo inteiro, continua a marcar golos. Em Barcelos, em Alvalade ou no Bessa. Golos que, no seu caso, são lições de vida às quais não podemos ficar indiferentes.

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